outubro 25, 2009

Considerações sobre o discurso de Carlos Filipe Camelo na Cine Eco, um discurso histórico

Nem sei como começar este texto. Escrevo sempre ao correr da pena, levado simplesmente pela inspiração do momento. A única coisa que corrijo são gralhas provocadas pela velocidade, já que os meus dedos no teclado não acompanham de forma nenhuma a velocidade do órgão que os manda trabalhar.
Olha: vamos começar por aí. Pela velocidade.

A velocidade no interior

No interior estamos habituados a ver coisas que funcionam mal. Porque quem as faz funcionar não está habilitado para isso. E porque os que estão habilitados vão para o litoral ou para as grandes cidades.
Ontem mesmo Lauro António desculpava as coisas que correm menos bem, no interior, com a nossa interioridade.
Há quem defenda que esse fenómeno de despovoamento dos competentes, do interior, provoca fatalmente que os poucos que teimosamente resistiram ao êxodo se sentem desaproveitados e acabam por fazer o mesmo que vêem fazer aos demais: o mínimo possível para se manterem à tona, no limiar da sobrevivência.

A verdade é que quem sabe fazer mais do que uma profissão ou quem exerça essa profissão de forma apaixonada e com total entrega, pouco encontra que fazer no interior. Porque não é valorizado nem aproveitado. O sistema está montado para dar resposta ao expectável. Um criador, um artista, uma pessoa diferente da esmagadora maioria dos mortais não é previsível, nem expectável. Por alguma razão ainda não determinada o seu cérebro não funciona da mesma forma.
O dos homossexuais parece que também não. Mas esses, como são muitos, conseguiram arranjar um lobby que trabalha incessantemente para que eles sejam aceites socialmente.
Um criador ou um trabalhador competente tem a vida mais dificultada que um homossexual. A competência não se organiza em lobbies, por definição.

O valoramento, no interior, tem sido feito pela média ou pela mediana, pelo que quem está desajustado desse valor central acaba por se sentir fatalmente empurrado para ele. E a mediana é, como o próprio nome indica, desmotivadora e até opressora dos talentos e da criatividade de um trabalhador.

De maneira que o primeiro problema com que se depara um cidadão que não seja mediano no interior é com a falta de interlocutor.
Em todo o interior?
Não.
Os municípios estão a descobrir por todo o lado que têm que lançar mão dos melhores recursos que ainda possuem nas suas terras: os humanos. Recebo emails diários das Câmaras municipais vizinhas a darem conta de iniciativas que são nitidamente cada vez menos estúpidas, cada vez menos folclórico-depressivas, cada vez menos apalhaçado-pseudo-culturais e cada vez mais revestidas de algum sentido, de algum conteúdo, de alguma Inteligência.
Sinais dos tempos.
Estará esta mudança a ser protagonizada pelos jovens que proliferam agora nas Câmaras Municipais a fazer estágios? Eu acredito nisso porque dos velhos não se espera grande iniciativa. Especialmente daqueles que nunca a tiveram antes.


A Inteligência e o Caos

Portanto, a velocidade da promoção de iniciativas sociais de componente cultural e o nível intelectual de quem as propõe estão a aumentar mais rapidamente do que os velhos morrem, no interior. E porquê?
Porque as velhas fórmulas revelaram-se gastas, ficaram progressivamente sem público, sem clientela. As pessoas envelheceram e cada vez menos saem de casa.
São oferecidas por todo o lado, aos públicos do interior, iniciativas surpreendentes no sentido de despertar a sua curiosidade e posteriormente a sua adesão.

Ultrapassando esta fase algo atabalhoada e frenética, como é natural, tenho que dizer que é esse o caminho.
A Cultura não pode ser privilégio do Litoral e das Grandes Cidades.
Os agentes culturais devem renovar as suas ofertas e fazê-las chegar nas formas mais diversificadas que for possível ao interior. Mas não caoticamente e sim submetidas a um projecto, a uma filosofia. Nunca de forma desgarrada sem qualquer fio-condutor que as ligue entre si.

A Cultura é tudo menos caótica, embora algumas formas de Arte o pareçam ser. Nunca o são. Cada pincelada, cada ângulo esculpido, cada nota musical foi pensada pelos seus criadores como parte daquela Obra mais abrangente: um quadro, uma escultura, uma sinfonia.
Toda a Cultura é, hoje, tecnológica. O mais humilde artesão utiliza a tecnologia nem que seja a de que se reveste o seu formão, a sua roda de oleiro, as suas próprias mãos nuas, que são as ferramentas tecnologicamente mais avançadas que há. Ainda hoje não se conseguem reproduzir com o mínimo de qualidade.
Eu próprio sou um artesão digital. Manipulo informação digital (zeros e uns) transformada em imagem e som com as ferramentas de que disponho (computadores, câmaras de video, microfones, mesas de mistura, compressores, hardware e software dedicado).

A "transmissão" da Cultura chamada erudita ou tecnológica exige que quem dela se incumbe esteja munido também das ferramentas necessárias para que essa transmissão se faça com a máxima eficácia.
E uma dessas ferramentas é a Inteligência que, tal como a Cultura ou a Arte, ninguém sabe ao certo o que é, mas que eu defino como o anti-caos: a reunião feliz de um conjunto de capacidades e perícias que, coordenadas de forma articulada e coerente, fazem sentido (obedecem a uma lógica matemática) e por isso produzem os resultados esperados.
Reconhece-se claramente essa, por entre outras, na caixa de ferramentas do Carlos Camelo.


O discurso
Qual o papel da autoridade máxima do Município neste contexto?
Exactamente aquela que ontem transmitiu Carlos Filipe Camelo na sessão de encerramento da Cine Eco e na qual eu me revejo a 96%.
Elegendo como uma das suas prioridades a disponibilização do Bem Cultural às populações, defendendo que ele não tem condições para ser auto-sustentável porque as populações (ainda) não o valorizam, e assemelhando-o, nesse campo, ao Bem Científico, estabelecendo claramente a ponte entre a Cultura e a Investigação Científica, Carlos Camelo quebrou as vidraças empoeiradas do culto da mediania que não deixa ver mais do que um palmo à frente do nariz, a que se tem colado sistemicamente o obscurantismo, a mediocridade e a comiseração.

Então porquê "apenas" a 96%?

Primeiro porque eu nem comigo concordo sempre a 100%. É essa margem para a dúvida metódica que me impede de estagnar como infelizmente vejo outros à minha volta. 1% de dúvida permanente permite-me evoluir e aprender com os erros que cometo.
Outro 1% pela forma marcadamente erudita e por isso "hermética" do discurso de Carlos Camelo, que não acredito tenha atingido sequer 5% das pessoas ali presentes. O que foi uma pena.

O terceiro 1% é porque eu não consigo encontrar no modelo desta Cine Eco a superior utilidade largamente propalada aos microfones das sessões de abertura e de encerramento. Aliás, esses auto-elogios repetitivos e recorrentes fazem desconfiar o mais distraído de que algo não correrá bem, caso contrário eles seriam desnecessários.
E não encontro essa superior utilidade simplesmente porque as pessoas... como hei-de dizer...?... não vão lá.

Ora, eu que sempre apoiei a realização deste festival de cinema ambiental em Seia e colaboro com ele sempre que solicitado, fico triste ao verifica-lo ano após ano.
Mas sou só eu!
A organização rejubila sempre anualmente com o êxito de cada certame e eu dou por mim a pensar se não serei eu que vejo mal (o público nas salas)

É que já lá vão 15 anos...
O festival teria, de facto, toda essa utilidade se as pessoas o frequentassem.
Já não se pedia salas cheias, mas que raio...
Aquilo que eu não consigo perceber é porque é que pelo menos os senenses não aderem em força ao certame.

O próprio Lauro António lamentou ontem que as escolas não aparecem. Se os jovens não aparecem a aposta está perdida e nem será necessário complementar essa informação com a outra: é que os menos jovens também não.

De qualquer modo quero tranquilizar o Lauro António informando-o que todos os meus alunos, e muitos que o não eram, viram atentamente o HOME, ainda em Junho do ano passado, porque o comprei na FNAC no dia do seu lançamento.
Mas se, de facto, o festival tem como principal objectivo a protecção ambiental e se quem tem a Vida pela frente não se interessa por estes temas... é como oferecer, ano após ano, aulas de condução de borla a quem, também ano após ano, continua a preferir andar a pé.

Portanto, estamos a trabalhar para quem?

E eu penso que é esta a grande questão que o brilhante discurso de Carlos Camelo não contemplou mas que ele deve colocar a si próprio e à Empresa Municipal que lidera:

Estamos aqui todos a trabalhar para quem?

Uma coisa é considerarmos que a Cultura é para todos e tem que ser proporcionada a todos pelo que tem que ser subsidiada, nesta fase, já que as pessoas não a valorizam. Tem que se criar públicos e massa crítica.
Plenamente de acordo.

Mas atenção: coisa oposta é o elitismo.
Na Guarda, o TMG produz espectáculos caríssimos para grupos de 12 pessoas assistirem. E consideram o balanço positivo.
Bem... depende do orçamento de cada Empresa Municipal, mas gastar o dinheiro das centenas de milhares de contribuintes da Guarda para que apenas um reduzido grupo se digne aproveitar não é inteligente. Porque depois falta para o que seria mais eficaz.

Eu sou ABSOLUTAMENTE contrário ao elitismo pedante.
Apoio a Cultura para todos, provisoriamente subsidiada porque tem que o ser no interior, neste momento, mas tendencialmente patrocinada na justa medida do ritmo de criação de públicos.
E receio que o actual modelo da CineEco esteja a ser conotado com um elitismo que, de facto, não tem.
Mas isto é como tudo. Não basta não sê-lo. É preciso não parecê-lo.
E, na minha humilde opinião, enquanto a componente social-vip do festival assumir a sua preocupação principal, o distanciamento dos espectadores aos filmes será directamente proporcional.

Bem sei que todos os grandes festivais de cinema têm os seus artistas convidados e é isso que também traz visibilidade ao evento. Artistas trazem televisões, tvs trazem os artistas e é um ciclo perpétuo. Se os festivais ganham nome já nem pagam aos artistas e são eles que se oferecem para vir, porque estão lá as tvs e as revistas todas. Tudo à sua escala, evidentemente.
Mas... qual é a nossa escala?

E aqui está o último 1%

Fazer descer o festival à cidade, às freguesias, organizar grupos previamente nas escolas, nos serviços, nas empresas, na sociedade civil para visualizar e comentar determinado documentário, levar alguns documentários às escolas, e não manter o festival em círculos restritos, em núcleos duros, no ambiente reservado dos hotéis é capaz de ser uma medida positiva, se de facto queremos abrir o festival à população.


Eu gostei muito de ter produzido a imagem da sessão de encerramento.
Acho que correu bem, tirando um problema técnico logo no início a que fui alheio.
Ela deu um cheirinho da dimensão que pode atingir um festival mais a sério.
Ritmo, conteúdos, timing, impacto audio-visual.
Foi, perdoem-me, um verdadeiro espectáculo.
E a organização pode continuar a contar com o meus fracos préstimos, quer a Cine Eco se expanda, quer não.

Mas é preciso tentar.
Penso eu de que.

Publicado por JoaoTilly em outubro 25, 2009 10:51 AM