março 10, 2008

Cá para mim, Sócrates quer provocar eleições antecipadas!


Ao afirmar peremptoriamente que suporta totalmente a política da educação que a ministra tenta implementar, sem ouvir Cavaco, Sócrates jogou a mais importante cartada do seu mandato.
Porque bem sabe que quando Cavaco voltar, vai ter muito que lhe explicar.
Por isso antecipa-se.

Chamo daqui a atenção aos meus leitores:
Cá para mim, Sócrates, com a popularidade em queda livre, vai fazer uma jogada final.
Aproveitando a ausência de Cavaco, já anunciou que está irredutivel.
Quando Cavaco voltar e lhe puxar as orelhas, daqui a uns dias, Sócras responderá que já anunciou que apoia a ministra e por isso não remodelará nada no seu gabinete.
E Cavaco fica entre a espada e a parede.
Ou abre um conflito institucional público, ou cala-se, perdendo o respeito de todos os professores. Que ele já percebeu que são praticamente todos: 150 mil.

Aproxima-se, pois, um momento fulcral na política portuguesa:
Se Cavaco se cala, a inteligência nacional cai-lhe em cima. Provavelmente o seu estado de graça termina, porque os professores já mostraram que não pararão.
Se chama a atenção em privado a Sócras, este vai responder-lhe que já anunciou publicamente que apoia incondicionalmente a ministra e não pode recuar para não perder a face.

Cavaco vai ter que decidir: ou aceita o braço de ferro ou não.

Eu penso que ele terá que o aceitar sob pena de perder a face e a confiança da esmagadora maioria dos portugueses não broncos.
Que ainda são muitos. Não se pense que não... Só professores serão 150 mil. Mais as famílias. E os amigos. E os indecisos. E os descontentes por outros motivos. São mesmo muitos... mais de um milhão a somar aos que naturalmente não votarão Sócras. Este milhão (pode chegar a 2 facilmente) desiquilibra tudo.

Cavaco tem que perceber isto porque Sócras, com aquela arrogância cega que o caracteriza, pensa que são só 100 mil votos e que ganha o dobro com os pais.
Sócras pensa que quanto pior fizer aos professores mais votos ganhará dos pais.
«Perdi os professores mas ganhei a opinião pública», lembram-se?
Por isso apostará na fractura da sociedade portuguesa: pais contra professores. Ele pensa que tem o jogo ganho já que, embora os professores também sejam pais, há muitos mais pais que não são professores.

Isto é o pensamento mediano e básico de quem não possui uma pinga de inteligência. Apenas ratice politiqueira. E isso, verdade seja dita, não lhe falta.

Mas vejamos porque não funciona este raciocínio básico do 2 + 2 = 4.
A principal razão está paradoxalmente no factor em que ele mais aposta: na ignorância e no nivel de escolaridade dos pais.
Porque essa ignorância, ao contrário da sua própria, não é arrogante: a esmagadora maioria dos pais não está contra os professores porque não possui recursos intelectuais para ajuizar sobre estes assuntos mais complexos.
As famílias portuguesas, para além de inacreditavelmente iletradas, também são bastante tradicionalistas. Não desenvolveram espírito crítico porque nunca o exercitaram no tempo da escola nem autodidacticamente fora dela. Infelizmente não é nas conversas com os vizinhos, a consumir desenfreadamente o futebol ou as novelas das TVs que se aprende alguma coisa ou se desenvolve a inteligência.
A moda do dizer mal dos professores não colhe, por isso, a maioria (longe disso) na população. Claro que há uns raivosos, uns frustrados que nunca deram nada nos estudos e culpam os professores por isso.
Mas esse número é uma pequeníssima minoria no universo das famílias portuguesas.
A maioria dos pais reconhece que os professores, por muitos defeitos que tenham, são muito mais cultos do que eles e, por isso, acabam por confiar neles, segundo todos os estudos que foram publicados recentemente.
O povo confia muito mais nos professores do que nos políticos.
Por isso, este esticar de corda vai acabar por correr mal a Sócras, se Cavaco aceitar o braço de ferro.

Sócras está preparado para lançar a bomba atómica. Percebeu-se hoje.
Mas é bluff, na minha opinião. Ou então pirou de vez.
Se Cavaco o encostar às cordas tenho a certeza de que ele não se demitirá para provocar eleições antecipadas.
Porque não tem a certeza de que ganhe.
Já não tem.
Por muito que as sondagens da «Eurosondagem» do socialista e ex-deputado do PS Rui Oliveira e Costa lhe dêem a maioria, Sócras sabe bem que números são aqueles e quem os encomenda...

Mesmo que ganhasse nunca seria com maioria absoluta. Ou seja: se agora está com dificuldades, depois seria pior.

Mas pode sempre acontecer que Sócras se tenha passado da cabeça e esteja convencido que sai com uma maioria reforçada, tipo Alberto João.
Nesse caso Cavaco deve fazer-lhe a vontade.
Aceitar o braço de ferro e mandá-lo fazer o que ele quiser.
Cavaco tem que se impôr e devolver a bola a quem lhe deu o primeiro pontapé.
De uma forma ou de outra, Portugal fica a ganhar.

Se Cavaco não for a jogo, irão os professores e as populações por causa dos Hospitais desactivados. E Cavaco ficará desautorizado aos olhos das populações.
É uma questão de meses.
Este ano não haverá "silly season", tenho a impressão...

Publicado por JoaoTilly em março 10, 2008 12:48 AM
Comentários

Portugal precisa de pessoas que apresentem alternativas, criticas construtivas, e não de pessoas que apenas recorrem à critica no sentido pejorativo. Compreendo a insatisfação dos professores, no entanto, também eu ( que não sou funcionário público ) levo trabalho para casa e também eu sou avaliado pelo meu desempenho nas minhas funções.
Parece-me de muito mau tom dizer que a maior parte dos portugueses não tem capacidade intelectual para entender este assunto como diz o sr professor no seu blog: "a esmagadora maioria dos pais não está contra os professores porque não possui recursos intelectuais para ajuizar sobre estes assuntos mais complexos."

Afixado por: Victor em março 12, 2008 11:38 AM

Pode ser de mau tom, mas é verdade.
E não sou eu que o digo.
Leia José Gil e ana Benavente, por exemplo.
A Lepra, a Sida, a Tuberculose são de muito mau tom. Mas existem.
Desculpe lá...

Afixado por: João Tilly em março 14, 2008 02:21 PM

Eu concordo com o Professor Tilly.
Se Portugal não fosse um país de iletrados, não estaríamos a respirar a crise social, económica e institucional que se alastra há vários anos.
É preciso "mão firme" em relação a este tipo de assunto e não nos prendermos ao politicamente correcte, ao socialmente aceite.
A critica, pejorativa ou não, capta a atenção e tenho a certeza que é esse o grande objectivo de todos aqueles que escrevem e opinam sobre politica.
A diferença é que uns conseguem e outros não.
Porque será.

Cumprimentos

Afixado por: Manuel João em março 15, 2008 10:07 PM
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