
Os professores andam completamente desorientados.
Na loucura do preenchimento de grelhas, na voragem do cumprimento da legislação em catadupa que ninguém entende para que serve a não ser para mascarar a dura realidade de que somos um país de analfas em que os alunos simplesmente não aprendem a um ritmo normal, os professores andam perdidos em preenchimento de papelada que não tem qualquer utilidade, porque dela não se extrai qualquer consequência, ainda menos qualquer melhoria para o ensino.
Trata-se tão somente de documentação desgarrada, duplicada, repetitiva, de preenchimento obrigatório destinado a justificar o injustificável.
Porque é que os alunos têm dificuldades? Ninguém quer saber. Basta dizer que têm. E depois inventar estratégias para ultrapassar dificuldades que residem basicamente em dois pilares que ninguém quer analisar.
1 - Mais de 20% das crianças do interior apresenta um estado de desenvolvimento nada conscentâneo com a sua idade biológica.
Porquê?
Isso é que era preciso investigar e descobrir.
Porque provêm de ambientes familiares (?!) marcados pelo desemprego, pelo vinho, pela estupidez, pelo analfabetismo funcional, pelo atraso congénito, pela falta de comida e de higiene. Em 2008.
Porque é que há tanto NEE, tanto 319, tanto currículo alternativo nas escolas do interior?
Doi muito perceber porquê. Mas está à vista de todos. É preciso cerrar os olhos com muita força e tapar bem o nariz para o não perceber.
Mas disso ninguém quer saber.
O que fazem os assistentes sociais? Porque é que as escolas os não chamam?
Como é possível que seja do conhecimento geral que os pais de determinado aluno passem o dia à porta da taberna e voltem para casa a cambaler apenas à noite deixando os filhos em casa todo o dia sem nada para comer?
Onde está a Escola neste processo? A autarquia? A GNR? A segurança Social?
Alguém que acuda a estas crianças!!! Onde está?
Nada! Não há ninguém...
Escreve-se nas grelhas: "dificuldades na compreensão e aplicação de conhecimentos".... "pouco tempo dedicado aos estudos"...
Que CRIME!
Como podem as crianças dedicar tempo aos estudos com a barriga vazia?
Sem água para tomar banho?
A tresandarem com a mesma roupita semanas a fio???
CRIME!!!
As Escolas e as Autarquias e a GNR e a Segurança Social, todos são cúmplices desse hediondo crime que se está a perpetrar contra estas crianças desprotegidas.
Estratégias??? É proporcionarem-lhes uma casa condigna com comida na mesa e água quente na casa de banho!
Essa é a primeira estratégia.
Disso ninguém quer saber.
Deixá-los viver para castigo, não é?
Tudo se cria, não é?
Vergonha!
2 - Desinteresse absoluto pelos estudos porque os alunos bem sabem que no fim do ano passam na mesma.
O efeito pernicioso que eu ando a denunciar há anos está aí em todo o explendor! São os próprios alunos que agora dizem aos professores que não vale pena estudar porque fulano e cicrano nunca fizeram nada e passaram na mesma. Para que é que vão matar a cabeça a estudar?
Os pais apenas lhes exigem que passem (alguns nem isso!); ninguém lhes exige que aprendam, de facto, alguma coisa.
Pronto.
Estratégias??? É mostrar-lhes que, nos tempos que correm, mesmo aprendendo o que se lhes ensina, irão ter muita dificuldade em arranjar emprego, quanto mais não sabendo coisa nenhuma à saída de uma escola!....
Ler, compreender, fazer cálculos simples... como se pode arranjar emprego sem estes mínimos requisitos?
Disso ninguém quer saber.
É preciso é despachá-los com o 9º ano para as estatísticas. E, se não derem nada na escola, vão para o centro de Emprego da Guarda aprender a jogar futebol, que lhes dá equivalência ao 9º ano!
Vergonha!
E os professores? O que fazem?
Toca a preencher grelhas atrás de grelhas, umas obrigatórias, outras que os próprios DTs inventam (!!!), que no fim do ano conduzam a uma falsa sensação de melhoria nos resultados globais que se pretendem, por esta via, inflaccionar.
Mas que nada trazem de positivo ao Ensino propriamente dito.
As crianças não aprendem mais nem melhor por via das dezenas de documentos que os professores são obrigados a preencher de ora em diante.
Trata-se apenas de papelada para inspecção ver. Ou nem isso, que não há inspectores em número suficiente para ler um milésimo da papelada agora produzida nas milhentas reuniões intercalares praticamente inúteis que se estão a realizar por todo o país.
Inúteis porque nelas não se trata de pedagogia. Apenas de burocracia. Pura e dura. Papelada.
Em 3 horas de reunião não há um minuto para se tratar de estratégias pedagógicas sérias para debelar este ou aquele problema dos alunos.
Trata-se do preenchimento frenético de grelhas com a chamada «chapa 100». Ou seja, com o "carimbo" da treta do costume, treta esta igual a toda a treta similar que se está a produzir em todas as escolas por esse país fora.
Para inspecção ver.
Se os alunos de facto aprendem, ou porque não aprendem, isso já são pormenores para os quais acaba sempre por não haver tempo.
E também ninguém disso quer saber.
Há é que preencher grelhas e mais grelhas a contra-relógio e, mesmo assim, as reuniões que deviam demorar hora e meia acabam por demorar 3.
É preciso é estancar o envergonhante abandono escolar e que as crianças passem de ano quer saibam alguma coisinha, quer não.
Isto é que é preciso ser dito e denunciado!
A palavra de ordem do Ministério é: PASSEM-NOS! PASSEM-NOS!!!
Este belo texto de Maria João Teles reflecte esta triste e envergonhante realidade a que estão submetidos os professores e a escola de Portugal hoje em dia.
A não perder.
Tristeza
(...)
Por isso, fiquei muito surpreendida quando, esta manhã, acordei com uma vontade intensa de procurar o endereço do meu blog ( até me esqueço dele!) e desabafar.
Desabafar porque a tristeza que tem tomado conta de mim, nos últimos tempos, já não se contenta em ser verbalizada com alguns colegas de trabalho (poucos!) que, infelizmente, vão partilhando estes sentimentos de desalento e angústia.
Desabafar porque estou a sentir-me inútil, enxovalhada, descartável e uma peça partida de um jogo de xadrez qualquer, jogado por aprendizes dessa arte ancestral e que requer tanto inteligência como habilidade. Ou será que se tratam antes de foliões que, num pub rasca qualquer, vão atirando dardos a um alvo para passarem o tempo?
Desabafar porque, quando me perguntam qual é a minha profissão, eu já não sei se devo responder orgulhosamente "Sou professora!" ou, em vez disso, "Faço parte de uma companhia circense e, conforme o dia, vou sendo a mulher-palhaço, contorcionista, malabarista, domadora de feras...Olhem! Acumulo funções!"
Aproximam-se a passos largos os meus quarenta e três anos. Desde os seis que estou ligada ao ensino. Nunca cheguei a sair da escola. Fui aluna e depois professora. Comecei a leccionar ainda como estudante universitária e esta profissão faz parte de mim como a minha pele. No entanto, hoje sinto-me como uma cobra: com uma urgente necessidade de a mudar e arranjar uma nova.
Pela primeira vez, questiono a sabedoria da escolha que fiz relativamente à minha profissão. Escolha consciente, diga-se em abono da verdade...a culpa foi toda minha, ninguém me obrigou e pessoas avisadas bem me alertaram.
Mas, também existiam outras que pensavam de forma diferente.
Relembro nomes de antigos professores... daqueles que, por si só, já eram uma aula e não precisavam de recorrer a metodologias e estratégias inovadoras (já agora...se alguém souber de alguma que ainda não tenha sido tentada, não seja egoísta e partilhe-a comigo...eu já não consigo inventar mais!).
Recordo como esses professores me incentivaram a seguir esta carreira-"Foste feita para ensinar, miúda! Vai em frente!"- e como um deles, quando o encontrei já bem velhote, comentou com um sorriso "Eu bem sabia! Sempre lá esteve o bichinho!"
Que diriam, todos os meus professores que já partiram, sobre tanto decreto regulamentar que, em vagas sucessivas, vai transformando a nossa Escola e os seus professores num circo de muito má qualidade, cheio de artistas saturados, humilhados, mal pagos e fartos de trabalharem num trapézio sem rede?
Sou regulada por um Ministério que espera que eu seja animadora cultural, psicóloga, socióloga, burocrata, legisladora, boa samaritana, mãe substituta...
Espera-se que tenha doses industriais de paciência e boa vontade, que me permitam aguentar a falta de educação de meninos mal formados, de meninos dos papás, de meninos que estão na escola apenas porque não têm ainda idade para trabalhar (porque bom corpo isso têm!), de meninos que estão na escola a enganar os pais, que até se deixam enganar por conveniência, de meninos que frequentam os Cursos de Educação e Formação e os Profissionais porque acham que é uma forma de fazer turismo com os livros debaixo do braço (desculpem, enganei-me...vou rectificar- "sem os livros debaixo do braço"), de meninos que vêm para a escola para não deixarem que outros meninos, estes últimos sim, com aspirações e provas dadas, possam seguir em frente até serem os homens que os primeiros nem sequer conseguem projectar mentalmente...
Além disso, tenho reuniões: de departamento, de conselho de turma, de equipa pedagógica, de Assembleia de Escola (pois foi...também caí na patetice de aceitar presidir a este órgão...mais uma vez a culpa foi minha, pois pessoas avisadas bem me alertaram!), de grupos ad-hoc, de reuniões para decidir quando faremos mais reuniões...
Tenho legislação para ler. Labirintos de artigos em que o próprio Minotauro marraria vez após vez num ataque de fúria! Um dédalo legislativo, no qual nem Teseu conseguiria encontrar a ponta do fio.
Há papelada para preencher. Pautas dos profissionais, grelhas de observação para cada um dos alunos, registos das actividades de remediação...
Não esquecer a reposição de aulas. As dos alunos que faltam por doença, por namoro, por jogo dos matraquilhos...desde que a justificação do Encarregado de Educação seja aceite, lá tenho eu de arranjar actividades de remediação para quem não quer ser remediado!
Proibi a mim própria adoecer, visto que também tenho de repor essas aulas, mais as das greves, as das visitas de estudo dos alunos nas quais a minha disciplina não participa ( mesmo estando eu a cumprir o meu horário na escola...não faz mal, depois ofereço um bloco ou dois de noventa minutos gratuitamente!), as das minhas ausências em serviço oficial...
A questão é saber quando e como vou repor essas aulas, dado que o meu horário e o dos alunos é incompatível durante os períodos lectivos! Claro que isso não faz mal: dou dias das minhas férias! Afinal, não consta por aí que os professores estão sempre a descansar?
Tenho aulas para preparar. Testes e trabalhos para corrigir.
Devo investir na minha formação. Quando? Como? Onde?
E isto é a ponta de um rolo de lã que, bem aproveitadinho, dava uma camisola e pêras! Ou então uma camisa de onze varas!
Fazendo o ponto da situação, sobra-me pouco tempo para aquilo que gosto realmente: ensinar.
Pouco tempo para aquilo que me dá prazer: fazer circular o conhecimento.
Pouco tempo para conseguir que esse conhecimento ocupe o espaço que, na maioria dos casos, é ocupado por uma crassa ignorância.
Agora, dizem-me que vou ser avaliada ( tudo bem, não tenho nada contra o ser avaliada...talvez assim, com as novas emoções, eu descongele, pois há tanto tempo que estou no frigorífico laboral!), mas parece-me que vou voltar a uma espécie de estágio ainda pior do que aquele que enfrentei há dezassete anos atrás.
Tenho receio que as escolas se transformem num circo ainda maior.
Um circo de palhaços ricos e palhaços pobres.
Um circo de compadrios e vingançazinhas pessoais.
Um circo em que uma meia dúzia de artistas vai andar vestido de lantejoulas e seguido de cãezinhos amestrados, uma outra meia dúzia vai tornar-se perita na arte do contorcionismo, para evitar obstáculos, e a grande maioria da companhia vai ter de engolir fogo para o resto da vida profissional.
Ah! Não posso esquecer que, se tudo correr de feição a este Ministério da Deseducação, até o senhor Zé da padaria vai poder presidir a um órgão de gestão das escolas.
Esta não é a profissão para a qual eu me preparei anos a fio.
Por isso, estou triste.
Estou triste.
E não escrevi sobre tudo a que tinha direito.
E esta tristeza, para que eu a consiga despejar convenientemente, tem de ser escrita, gravada com letras...não me chega falar dela.
Até porque, ultimamente, também já não me apetece falar.
Postado por FM http://reinodamacacada.blogspot.com/
Publicado por JoaoTilly em fevereiro 14, 2008 04:52 AMTilly! A GNR é culpada? Em quê?
--------------------------------------
A GNR tem várias missões . Uma delas é proteger os cidadãos dos maus tratos infligidos por outrem. Neste caso, pelos pais ou por quem esse papel desempenhar.
Há, paralelamente, vários programas dos quais destaco o PEEI, o NMUME e o PAFAC, que deveriam estar a correr e estão... mas é no papel.
Nada, ou quase nada, funciona.
Aproveite o tempo e faça lá uma investigaçãozinha, para ver se aprende alguma coisa...
Não liguem... este blog revela um homem que se tornou amargo e um verdadeiro "obsessívo-compulsivo" - todos temos um pouco de 'voyer' dentro de nós e é isso que me faz vir aqui.
----------------------------------------
Você pode ser voyeur... não duvido.
Mas não tem legitimidade para estender esse seu vício aos outros.
Você não é "nós", entende?
Não pode dizer: "todos temos", entende?
Se você for bicha, ladrão ou pedófilo, não somos nós que o somos. É você.
Entende este conceito de separação entre a sua pessoa e os demais?
É que isso aprende-se no jardim de infância. Se sim, da próxima vez que disser: "todos temos", pense bem se está a englobar alguém decente nessas suas virtudes...
E, mais uma vez, perdeu uma boa oportunidade de estar calado.
Volto a afirmar: de 'voyeur' todos temos um pouco! Se se propusesse a resolver esse 'seu problema'(e este sim, apenas seu!), qualquer profissional (leia-se psiquiatra) lhe explicaria a veracidade desta minha afirmação - (Eu não tenho tempo e também as regras deontológicas e jurídicas não permitem consultas via web)
--------------------------------------------------
Se é psiquiatra, hoje, está tudo explicado.
E amanhã?
Vai ser o Napoleão?
Ah, já esquecia: a educação não termina no Jardim de Infância e, mais tarde, aprendemos que muitas das coisas aí ensinadas são generalidades... só tenho pena é que algumas pessoas não evoluam e percam excelentes oportunidades - não de estarem calados, pois isso deveria ter acabado em 1974 - mas, isso sim, de terem um diálogo construtivo.
-------------------------------------------
Quem diz 50 asneiras em 100 palavras e não dá conta de nenhuma delas deve estar calado.
Só para não se envergonhar.
Mas afinal, você até sabe isso.
Porque se chama ppp não é?...
Pois eu, não.
Eu chamo-me João Tilly
Está a ver a diferença?
Sei que não. É mesmo tempo perdido...
Eh eh eh
É psiquiatra este grunho...
Este blog é divertido
A luta de um homem só contra um país de analfas
Não tens hipóteses ó Tily eles são muito mais...
Se não estivesse tão "alucinado" certamente teria percebido o meu nome. Aliás até já me enviou um email a insultar-me e onde expressa bem o seu profundo conhecimento do vocabulário e linguajar vernáculo. Mas isso o Sr. Afonso Costa e os outros não conhecem pois o Sr. é daqueles atira a pedra e esconde a mão - desefio-o a publicar aqui os textos insultuosos que envia via mail a todos quantos se atrevem a discordar de si!
Paulo Moreira
Só para que fique claro: Não me atinge quem quer...
Paulo Moreira