Todos nos habituámos a viver com as mais brilhantes iniciativas, vendidas a nível global, para manipular comercialmente a sociedade e dela tirar o máximo proveito.
O dia do Pai, o da Mãe, o dos namorados, o Natal são os principais pretextos para se venderem objectos.
O perigo não reside nisso, mas no conceito que entretanto se incutiu nos espítitos dos simples humanos que não destinguem uma manobra comercial, por mais óbvia que seja, de um eventual conceito superior que lhe estaria associado. E que não existe.
Portanto, sem questionar seja o que for, conseguiu-se que a população desatasse a comprar objectos nessas datas pre-determinadas, cumprindo, assim, o seu destino paradigmático: o de fazer o que lhe mandam.
É isso que se espera e se exige das massas.
De vez em quando é que a coisa corre mal. Mas isso são as excepções. Rebeliões, golpes de estado, revoluções são raros e a excepção à regra.
A regra é a pacífica aceitação de todas as orientações por parte do imenso rebanho de que todos fazemos parte.
Isto não acontece por acaso: as televisões, as rádios, a imprensa, todos têm a ganhar com a eliminação da inteligência, do livre arbítrio e do espírito crítico das populações.
Quanto menos se questionarem as "orientações superiores" mais facilmente elas são implementadas para bem dos projectos dos governos e de quem os sustenta: a Alta finança Mundial.
E quando até os pequenos estão de acordo com os grandes, é ouro sobre azul.
O pequeno comércio, que passa a vida a revoltar-se contra as grandes superfícies, está de acordo com elas nas datas acima referenciadas.
Pouco mais há a dizer sobre as iniciativas comerciais descritas a não ser que os media conseguiram incuti-las a pedra e cal no espírito das populações que a elas adere sob pena de ostracismo e segregação social.
Quem não irá oferecer um presente à namorada a 14 do corrente?
Quem não dará um presente à Mãe e ao Pai nos "seus" dias? E à família e amigos mais intimos no Natal? Impensável, hoje em dia.
A pretexto de quê?
De nada. É porque toda a gente o faz.
Mas o Carnaval é o mais perverso de todos os arrebanhamentos de consciências.
Porque não traz consigo um negócio associado.
Quer dizer: em muitos casos já o tem, porque os espertalhões perceberam que o conceito funcionava e há que tirar daí proveito.
Mas, ainda em muitos casos, não é de ganhar dinheiro que se trata.
Então de que é que se trata?
Para se entender bem a resposta a esta inquietante questão seria conveniente começar por interromper aqui a leitura para ler a minha mensagem de Carnaval, no texto anterior.
Retomando, é inquestionável que toda a gente quer ser Feliz, embora ninguém saiba o que isso é. Soa bem, parece ser bom.
Mas as drogas também o são, dizem-me.
De todas as que existem eu só conheço o álcool e a cafeína. Não sou, por isso, autoridade na matéria, mas se as drogas trouxessem infelicidade imediata ninguém se viciava.
É porque trazem algum bem-estar imediato...
Uma substância alucinogénia estranha entra na corrente sanguínea e exerce uma acção na parte do cérebro que trata das sensações e das emoções. Existe uma explicação física e química para o fenómeno. Uma explicação científica palpável.
Passando o efeito da substância, porque o corpo a absorveu na totalidade e a transformou noutra coisa qualquer, o viciado sentirá o efeito de falta da substância que o alucinou.
Também isso está explicado científicamente.
Eu próprio sinto falta do café, se estiver 2 dias sem tomar nenhum. Do álcool, curiosamente, nunca senti a mínima falta. Deve ser por isso que, aos 47, decidi cortar com a cerveja... fico-me com um alentejano tinto às refeições e água ou ice tea fora delas. Não custa nada.
Voltando ao Carnaval: se a felicidade aparece à hora marcada, e não é provocada por uma substância hipnótica, há aqui um problema grave para se resolver.
Quando a felicidade geral se justifica pela "alegria contagiante", passa a haver dois: o primeiro, que ainda não está resolvido, e o do suposto "contágio".
Eu penso o seguinte:
Não há nada que possa justificar a súbita invasão de uma sensação de felicidade nos dias 3 e 5 de Fevereiro às 3 da tarde.
Como não se explica o esforço de todas aquelas almas a construir carros alegóricos e a aprender coreografias, para não falar no frio que as pobres moças semi nuas rapam a desfilar no pino do Inverno em Portugal.
E a ausência de explicação é ela própria uma tese, tal como acontece nas religiões: «ou se acredita ou não».
Aqui é obvio que ninguém acredita em nada. Nada há para se acreditar.
Então o que leva as pessoas a alegrarem-se àquela hora certa?
Nada.
Não há motivo palpável, a não ser aquilo que elas pensam que os outros esperam que elas façam.
E isso é o que de mais importante há na vida para as pessoas intelectualmente desprotegidas - que se constituem e afirmam, cada vez mais, como uma esmagadora maioria em Portugal (e não só).
Provo-o com esta simples redução ao absurdo:
Não houvesse ninguém a ver e certamente não haveria Carnaval.
Para mim, o dogma carnavalesco em Portugal tem o seu âmago numa clara ausência de Inteligência e de Espírito Crítico de quem o promove e para ele contribui. Só essa ausência pode propiciar o aporte das mais aberrantes confusões e mesclas copiadas do carnaval brasileiro, por mais inimagináveis que nos pareçam.
Mas calma! Não ficamos por aqui.
Os carnavais "genuínos" e portugueses ainda são mais estranhos, dada a total ausência de referências. O monumental pedantismo que os suporta - herdado da mesma filosofia de "pesquisa" da música tradicional portuguesa que, aqui há uns anos, grassava nos meios "eruditos" que se dedicavam a estudar e a recriar o popularucho, conferindo ao que sempre foi banal uma dimensão que o banal nunca teve - é aqui mais mitigado, pois os eruditos do popularucho não dão a cara nos carnavais (a palhaçada ainda não confere status...) e lançam como "organizadores" desses corsos tradicionais gente comum da terra, gente simples e bem intencionada, que se esfalfa a trabalhar o ano inteiro para conseguir algum protagonismo social.
Os tais 15 minutos de fama.
O que não tem explicação... explicado está.