novembro 01, 2007

Professores desorientados em confusão total

A pressão que a ministra da Educação tem exercido sobre a classe mais desunida e menos consciente profissionalmente que existe em Portugal começa a dar, infelizmente, os seus frutos.
Os professores andam absolutamente desorientados e estão a desatar a fazer o que não lhes compete provavelmente com medo que "alguém" venha sobre eles.

É preciso acalmar os professores e dizer-lhes que eles têm apenas que cumprir a Lei de Base do Sistema Educativo que ainda não mudou - mas para isso é preciso que a conheçam minimamente o que, também infelizmente, é raro acontecer.
Se não se conhece o enquadramento profissional, há que o ler e estudar. E mais vale tarde que nunca.

Trata-se, no fundo, da Lei n.° 46/86, de 14 de Outubro, alterada pela Lei nº 115/97 de 15 de Setembro, na sua versão nova consolidada de Lei nº 49/2005 de 30 de Agosto, que pode consultar aqui.

Não podem os professores demitir-se dos seus deveres de conhecer a lei em que se enquadram e que não muda estruturalmente desde 1986 - e escudar-se em directrizes ou orientações avulsas que ninguém sabe se existem e em que contexto foram criadas.
Não podem os professores cometer ilegalidades para atingir determinados fins ou "ajudar" determinado aluno.
O enquadramento psicológico de cada aluno com dificuldades educativas especiais tem que ser alvo de um diagnóstico e de um estudo aprofundado e individualizado. Os relatórios dos psicólogos das escolas não podem ser um texto sempre igual, obtido por copy / paste uns dos outros, assim como os planos curriculares de turma não podem ser documentos que se preenchem de qualquer forma com a repetição sistemática da palavra "alguns" porque isso, para além de ridicularizar o documento em causa, esvazia-o de qualquer conteúdo e propósito.
Os documentos, que têm que ser elaborados, devem servir para enquadrar, diagnosticar e ajudar a despistar as dificuldades de cada aluno em particular e não ser uma amálgama de generalidades que apenas serve para se dizer que se preencheu mais uma grelha de preenchimento obrigatório.

Meus Amigos: o Ensino, em Portugal, está muito doente.
São as evidências dos resultados dos exames, são a vergonha dos exames, eles próprios, são a vergonha internacional de sermos o único país de uma europa a 27 que tem apenas o 9º ano como escolaridade obrigatória.

Os professores não podem continuar a fazer parte da doença.
Nem podem continuar a ser o bode expiatório de todos os males do sistema de ensino, como este governo pretende fazer crer à população.
Mas para isso, os professores têm que se unir e estudar os seus direitos e deveres.
Tanto profissionais como sindicais. Se não fossem os sindicatos os professores estariam já a aparar relva e a descascar batatas em muitas escolas.


Os professores têm que começar a fazer parte da cura.
Chegámos a um ponto em que ninguém sabe ao certo o que anda a fazer e faz porque ouve dizer ou porque os outros também fazem.
É desolador!
Os documentos de preenchimento obrigatório encontram-se absolutamente vazios de qualquer significado prático.
A papelada e a burocracia em que os professores estão a ser afogados apenas contribui para confundir as suas missões e isso torna-se uma evidência nas reuniões intercalares.

Há que parar para pensar o que estamos a fazer numa Escola: se estamos a preencher papelada de cruz, ou se estamos de facto a trabalhar em prol do cultivo da inteligência dos nossos alunos.

É aterrador perceber que, mal surge uma dificuldade com um aluno "diferente", nenhum professor sabe ao certo o que fazer.
Uns poêm-se a fazer testes específicos sem sequer terem diagnosticado as áreas em que o aluno revela maiores dificuldades, porque ou não há relatórios técnicos ou eles são generalistas e perfeitamente omissos no que deviam diagnosticar.
Outros, desatam a adaptar currículos por sua livre e espontânea vontade a alunos que nem sequer estão sinalizados como possuindo necessidades educativas especiais.
E mesmo que o estivessem, perguntar-se-ia sempre:
1 - Quais??? Quais são as necessidades educativas que determinado aluno apresenta e
2 - PORQUÊ? Por que razão um aluno sente dificuldades numa determinada área do Conhecimento, por vezes de grau de dificuldade baixo, enquanto não revela essas mesmas dificuldades noutra, muitas vezes envolvendo uma profundidade de raciocínio mais complexa até que a anterior?

O que temos que perceber é isso antes de tomarmos qualquer atitude relativamente a um aluno em dificuldades:
Quais são as dificuldades que ele apresenta EXACTAMENTE e PORQUÊ???

Sem isto, nada feito.

É só perder tempo nas reuniões e fazer perder tempo aos outros.
Só depois de percebermos que tipo de dificuldades o aluno apresenta e que fragilidades conceptuais manifesta poderemos começar a delinear uma estratégia para tentar despistar as suas dificuldades.
Não há que inventar, não há que improvisar adaptação de testes nem de currículos à sorte.
Os serviços de psicologia e os professores especializados nessa área são quem nos deve enquadrar cada aluno. E cada adaptação de conteúdos a leccionar terá forçosamente que ser fruto de um trabalho conjunto entre os serviços da educação especial e os professores generalistas, que somos nós, sem formação específica para lidar com crianças que, pelos vistos, não nos compreendem.
Não são só os testes que terão sofrer adaptações, caso a caso.
Nalguns casos serão mesmo alguns conteúdos que terão que ser substituídos. Mas noutros, e provavelmente na maior parte, nem será preciso substituir coisa nenhuma.

Eu não posso acreditar que uma escola normal apresente, ano após ano, 20 a 25% de alunos NEEs!

Seria um escândalo nacional e internacional!
Estaríamos num país de atrasados ou de doentes mentais, se tal fosse verdade!
Mas é isso o que se verifica, demasiadas vezes, aqui no interior.

É preciso é que os alunos se motivem para trabalhar e para estudar.
Não são os professores que têm que estudar pelos alunos.
São eles próprios que têm que fazer esse trabalho, ao contrário do que tem sido a prática ultimamente nas escolas básicas em que só os professores e os tutores trabalham. Os alunos, pouco ou quase nada.
Não pode ser!


Porque dificuldades, meus caros, todos nós sentimos e até os alunos de 5 a todas as disciplinas o sentem aqui ou além.
Por isso estudam diáriamente.

Caros colegas: não há que inventar.
Há que motivar os alunos para o estudo em vez de os rotular a torto e a direito com o artigo 319, como tem sido prática até aqui.
Os alunos são todos diferentes, por isso há notas de 1 a 5.

E, os professores, nesta voragem dos tempos e esmagados pelo medo que se instalou nas suas vidas e nas suas carreiras parece que esqueceram isso.

Aqui fica este texto como contributo - para além do que me farto de alertar nas reuniões - para nos relembrarmos e nos ressintonizarmos nas nossas funções.

Publicado por JoaoTilly em novembro 1, 2007 10:18 AM
Comentários

"Caros colegas: não há que inventar.
Há que motivar os alunos para o estudo em vez de os rotular a torto e a direito com o artigo 319, como tem sido prática até aqui.
Os alunos são todos diferentes, por isso há notas de 1 a 5." João Tilly.
Não podemos ser tão radicais.
A escola deve ajustar-se a todos os alunos.
Alunos com dificuldades motoras, visuais, auditivas, intelectuais, etc. não podem ter o mesmo currículo e tratamento que os seus pares.
O Decreto Lei n.º 319/91 de 23 de Agosto especifica muito bem quais as medidas a adoptar a estes alunos diferentes e não a aplicação das notas de 1 a 5, indiscriminadamente, e independentemente das duas capacidades.

Afixado por: Jacinto Figueiredo em novembro 12, 2007 11:13 AM

Não deve ter percebido o espírito do post.
É Claro.
Ninguém contesta isso.
Mas, na minha região, por exemplo, há escolas em que os 319 têm sido atribuídos sem o mínimo critério, de modo que os alunos aproveitam esse estatuto para não fazerem nenhum.

Afixado por: João Tilly em novembro 12, 2007 01:08 PM

Talvez não tenha percebido, mas se o DL n.º319/91 de 23/08 está a ser indevidamente aplicado os responsáveis são os Professores do CT que aprovam as medidas do Regime Educativo Especial e o OG da Escola que aceita ou não essa prerrogativa e coniventes com a situação são o SPO e Prof da Educação especial se existirem na Escola, porque algumas não têm estes recursos!

Afixado por: Jacinto Figueiredo em novembro 13, 2007 11:29 PM
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