A propósito da discussão sobre Democracia e ditadura iniciada nos comentários ao post anterior, lembrei-me de divagar um pouco sobre o que aconteceria a Portugal se, neste momento, estalasse um golpe de Estado como o que derrubou a monarquia, faz agora 97 anos, ou como o que derrubou o Estado Novo, há apenas 33.
E há, desde logo, a tendência para desvalorizar esta hipótese, porque não cabe na cabeça de ninguém que estale neste momento uma revolução popular (também não há memória de ter ocorrido nenhuma em Portugal) ou de ocorrer um simples golpe de Estado, embora desses, sim, já tenhamos tido vários na forma tentada só durante o século XX, dois deles vitoriosos.
Para acontecer um golpe de Estado é necessário que as condições de descontentamento no seio de quem tem as armas - as Forças Armadas - estejam criadas.
A Democracia aprendeu com a ditadura e jamais as voltará a criar. Há que ceder a tudo quanto os oficiais exigirem, para que o descontentamento não se instale. Há que nunca as fazer entrar em guerra, há que nunca cortar nas suas regalias e quando não houver dinheiro para armas terá sempre que o haver para ordenados elevadíssimos. Pelo menos para as altas patentes.
Assim se mantêm as FA controladas e se impede a sua sublevação interna.
Mas assim as FA não servem para nada! - exclamarão alguns, menos distraídos.
Mas é para isso mesmo que as FA devem servir: para rigorosamente NADA!
Qualquer desvio a este papel será extremamente prejudicial, senão mesmo letal para a Democracia.
Podemos comparar as FA, num regime democrático, a um cancro que se mantém controlado.
O melhor que nos pode acontecer é que o cancro se mantenha assim. Controlado. Que não faça nada nem "sirva para nada".
O 25 de Abril de 74 é a prova do que acabo de dizer.
Mas, responder-me-ão, é fácil manter assim as FA. Não há guerra, os militares têm as máximas regalias na Nação (as mesmas que têm os políticos), ninguém nos vai roubar mais nenhuma parte de território, portanto não vão ser necessárias nem vão entrar em acção. As nossas intervenções estrangeiras no âmbito da NATO também são protagonizadas por voluntários, de modo que nenhuma convulsão se espera das FA de hoje.
E parece verdade.
Até porque, mesmo que a Espanha nos roubasse outra Olivença, amanhã, Sócrates nunca enviaria tropas para lá.
Inteligentemente deixava roubar o que eles quisessem e tentaria negociar na secretaria o prejuízo menor.
Mas, por exemplo, se se levantar um movimento separatista na Madeira ou nos Açores (ou em ambos os arquipélagos) com o emprego da força: expulsão ou tomada de reféns dos militares aí estacionados, e das famílias dos representantes políticos do Continente, que ainda são umas boas centenas de pessoas?
Mais uma vez, seria a diplomacia a ser utilizada em vez da força.
E se a diplomacia não produzisse os resultados esperados?
Imaginemos que a Madeira e os Açores decidiam deixar de pagar impostos ao Continente. O que faria Sócrates?
Se a decisão fosse irreversível, e a Madeira e os Açores fossem auto-suficientes, Sócrates tinha que a aceitar, embora mentindo ao povo (também isso faria parte do acordo).
Agora imaginemos que, numa atitude radical, as ilhas decidiam não pagar mais nada a Lisboa e queriam que isso mesmo se soubesse.
Para evitar um cataclismo, o governo teria que aceitar a sua independência.
A Democracia não pode ganhar (=roubar) territórios a ninguém. Só pode perdê-los para ditaduras ou para grupos étnicos extremistas autóctones, como no caso da Tchechénia, ou da Sérvia e Montenegro, por exemplo.
Isto é: os governos, num regime democrático, só podem ceder a tudo o que for força exterior para minimizar o prejuízo. Qualquer acção de força levaria inevitavelmente à desfragmentação do regime democrático, porque iria trazer confrontos armados prolongados com as consequências inevitáveis de numerosas baixas colaterais entre civis inocentes e no seio das FA.
Portanto, ao contrário do pulso forte da Ditadura, que vive pela força e a usa no seu dia a dia - até para se manter no poder - a Democracia é naturalmente cobarde e submissa.
Não tem outro remédio.
Por isso mesmo, muito vulnerável a acontecimentos externos.
Qualquer analista político percebe que é muito mais fácil subverter um regime democrático desprotegido do que um regime ditatorial musculado.
Até porque, neste último, a Justiça é manipulada de acordo com os interesses do regime, de modo que é muito fácil fazer desaparecer quem se revele incómodo ao aparelho de Estado sem passar cartão a ninguém. Isso é impensável em Democracia.
Por todos estes motivos, a Democracia está muito mais exposta a ataques ao seu paradigma do que a ditadura.
Então como se tem mantido ao longo das últimas décadas nos países desenvolvidos?
A minha resposta a esta questão a seguinte: a Democracia funciona bem se as populações viverem com o mínimo de conforto. Mas já funciona muito mal quando as populações começam a entrar em sufoco económico-financeiro, como acontece hoje em Portugal.
O povo, num regime democrático, SABE que pode protestar, que ninguém o leva para o Tarrafal, nem o faz desaparecer.
E, por isso, protesta. Mas esse protesto forçosamente fragiliza a autoridade do regime, aos olhos do restante povo, que a isso assiste e também se vai sentir compelido a protestar por essas mesmas ou por outras razões.
Diria que a Democracia é um barril de pólvora sobre o qual está acesa permanentemente uma fogueira. Pode nunca rebentar, se as chamas não consumirem a tampa, mas as probabilidades são as de que, mais cedo ou mais tarde, a tampa seja consumida.
Quando um País (como acontece com Portugal) não possui recursos naturais que prolonguem indefinidamente uma situação económica que só pode ser temporária - os recursos fatalmente também terminarão - mais rápida se torna a evidência de que o equilíbrio económico tem que ser encontrado com urgência.
Mas aí é que começa e acaba o problema:
Como se vai poupar - e quem é que vai apertar o cinto - para que Portugal atinja o desejado equilíbrio financeiro?
E mais:
Vamos poupar em tudo, ou só em algumas coisas?
A esta respondo já: claro que não podemos poupar em tudo, porque depois a economia parava e a Alta Finança ia-se embora, transformando Portugal numa Cuba ou numa Guiné.
Há, portanto, que poupar por um lado, enquanto se constroem projectos megalómanos por outro.
Assim se fez com a EXPO 98 e com os 10 estádios do Euro 2004.
Mantendo a Alta Finança satisfeita, já se pode mandar apertar o cinto às populações.
E quem vai apertar o cinto?
Quem o pode fazer sem grande incómodo? Os ricos?
Também não, porque esses iam-se logo embora, como já vimos, e a classe política precisa da Alta Finança para enriquecer e para se fazer eleger, neste estado pantanoso de pescadinha de rabo na boca.
Então terá que ser o povo a apertá-lo, de uma forma geral?
Sim.
Por duas razões:
Primeiro porque não tem armas. Não pode fazer grande mossa.
Depois porque, como resultado de um logo e continuado processo de embrutecimento iniciado no Salazarismo e religiosamente continuado durante os 33 anos de Democracia, o povo português se fez maioritariamente estúpido e inculto, com muito pouca noção de cidadania e facilmente entretível com lixo televisivo barato.
Para as mulheres, 6 novelas por dia bastam e, para os homens, o futebol ininterrupto.
E assim se baniu a inteligência e o espírito crítico de um país que ainda há menos de 100 anos provou ao mundo que os tinha. Para dar e vender.
Conclusão: Desenhado todo este cenário, não haverá nenhuma possibilidade de sublevação popular no futuro?
O povo irá aguentar a corda no pescoço indefinidamente? Ou até quando?
A resposta é simples: até a fome ultrapassar a vergonha, e os filhos confessarem aos pais que a têm.
Não há nada que resista a isto.
A única possibilidade de revolta popular está, por isso, bem latente. E não será motivada por questões político-partidárias ou por outro motivo qualquer que envolva ética ou moralidade.
Será pela fome e pela miséria.
Só.
Eu não acredito que este povo esteja já totalmente domado por uma classe política corrupta e esmagado pelo peso do seu brutal endividamento à Alta Finança que, quando vir os filhos passarem fome, baixe os braços e abdique de protestar contra esse estado de coisas.
É, infelizmente, apenas nisto que reside a minha esperança em Portugal.
A necessidade falará mais alto. E se não for a dos pais, será a dos filhos. Ninguém disso tenha dúvidas!
O instinto de sobrevivência acabará por se sobrepor à alienação televisivo-governamental.
Assim, o meu prognóstico é este:
As famílias, por este andar, não poderão continuar a sustentar os filhos, durante muito mais tempo, dentro dos parâmetros mínimos aceitáveis de dignidade, dado o elevadíssimo grau de endividamento a que estão submetidas.
E depois?
Não há futebol nem novelas que substituam o pão, à mesa.
Viu-se, no Brasil, que o levantamento popular nos bairros residenciais, com o assalto generalizado a supermercados e mercearias, surtiu de imediato o efeito desejado.
Uma vez mais a Democracia fez o que dela se esperava: acobardou-se e cedeu.
Tratou-se de várias pequenas revoluções internas e localizadas, protagonizadas pelo povo anónimo e pobre, tanto em protesto contra a indignidade do sistema, como por simples imperativos de sobrevivência.
Em Portugal só pode vir a acontecer o mesmo, a tempo.
E o mal será o começar.
Quando o povo perceber que nenhuma força policial pode conter uma população inteira em revolução, os assaltos poderão tornar-se generalizados e Portugal poderá entrar definitivamente numa nova era.
A era da indignidade e da reivindicação nas ruas.
Para acalmar o povo e limpar esta imagem a nível planetário, os políticos portugueses terão que fazer como fizeram os brasileiros: começar a dar dinheiro às famílias carenciadas sob a forma de subsídios de sobrevivência.
E sem fazerem muitas perguntas...
É este o cenário que eu temo se instale em Portugal dentro de poucos meses.
E é na estupidez e na falta de visão dos políticos que nos governam que reside a minha esperança num Portugal renovado e expurgado da monstruosa corrupção que assola a nossa débil e ainda jovem Democracia.
Este texto devia estar incluido num tratado completo sobre a realidade portuguesa contemporanea.PARABÉNS!
Afixado por: Júlio Figueiredo em outubro 6, 2007 03:12 PMEste texto devia sêr lido em plena ASSEMBIEIA DA REPÚBLICA. Parabéns.
Afixado por: Inverno em outubro 7, 2007 05:42 PMParabéns por quase tudo quanto tem sido dito aqui, no seu blog, sem medos, sem rodeios, sem ter de ser "yes man" de quem quer que seja.E se digo apenas quase tudo e não tudo,são apenas questões de relativação, pois o tudo supera o quase.Embora não se enquadrando a cem por cento no tema, o que passo a expôr é mais uma realidade que contribuirá para o elevar de tom do desencanto, o contrário do encanto que a grande parte atingiu quando entregaram os destinos deste País aos "novos economistas", que conseguem ultrapassar "deficits" à custa da economia especialmente com a saúde e educação.
Aí vão os factos:-
Centro de Saúde de Seia:- Necessitando de uma consulta para o Médico de Família, para lhe dar conta de algumas consultas de especialidades a que fui obrigado a submeter-me e ainda para obter receita para as "famigeradas vacinas contra a gripe", uma vez que sou um idoso para quem é recomendada a sua aplicação, só consegui essa consulta para trinta e seis dias depois, seja, já em plena época outounal, com risco de entretanto ser apanhado por algum virus, que, evoluindo, lá poderá atirar comigo para o Hospital, onde me poderá acontecer aquilo que aconteceu a um seu ente querido, pedidndo desculpa de lembrar tal desgraça.É que já me ia acontecendo o mesmo.
Posto Médico de S.Romão:- Consulta para Méico de Família.É assim:- Ou vem para a porta do Posto Médico pela manhã, para apanhar vez, se houver ainda alguma vaga das que guardam diariamente. Consta que tal é infrutífero, dado que alguns familiares de doentes madrugam para o efeito ou...
Outra hipótese:- Na última sexta feira do mês, da parte da tarde,começam as marcações das consultas para o mês seguinte. Se acontecer como aconteceu neste último mês, (Outubro a decorrer), nessa última sexta feira de Setembro os utentes eram tantos que as datas disponíveis durante o mês de Outubro esgotaram ,e não conseguiram todos marcação de consulta.Assim terão de voltar agora em 26 de Outubro a tentar de novo, se entretanto não foram desta para melhor.Querem País mais terceiro-mundista?
Agradecerei a publicação.
Não refiro datas por ser facilmente identificável, e ficar marcado pelos senhores (as)que nos "guichets" nos tratam da saúde.