
Se houver alguma classe, em Portugal, mais incompetente que a política, ela é, seguramente, a dos jornalistas.
O caso aberrante de um fórum TSF ter sido feito hoje à pressa a partir de uma informação errada é mais uma prova de que andamos aqui a brincar aos cow-boys neste jardim à beira mar plantado.
Informar, investigar, questionar, promover o contraditório ou seja: tentar ir buscar o outro lado de cada história são actos formais do jornalismo em qualquer parte do mundo civilizado.
Menos em Portugal.
Aqui, o jornalista (a esmagadora maioria) publicita o que o poder instituído os manda fazer.
E não se pense que é um fenómeno socialista, este do controle dos orgãos de informação, reduzindo jornais respeitáveis a publicações panfletárias do governo. Não!
Tem sido assim com todos os últimos governos, à excepção do de Santana Lopes.
Esse, teve a informação toda contra ele.
Mas tirando essa excepção, a regra tem-se confirmado.
Quem estiver no poder tem o jornalismo de propaganda à disposição.
E isso não se consegue apenas com as míriades de assessores de imprensa de que cada ministro se rodeia. Claro que cada um deles tem amigos colocados em vários jornais e o tráfico de influências também passa por aí, mas não só. O fenómeno toca mais fundo na sociedade portuguesa.
É que, à rigorosa semelhança do que se passa em Seia relativamente à CMS, muitos jornais em Portugal auto-assumem uma postura pró-situacionista relativamente ao governo em exercício, sem que ninguém lhes encomende o sermão.
Começam logo a cantar loas a quem acabou de ser empossado, vá-se lá saber porquê.
E isso é o que mais me preocupa.
Porque lamber botas, com um objectivo específico, num dos países onde a corrupção é considerada absolutamente normal pela população, isso não me espanta nada.
Mas lambê-las sem que ninguém lhes ofereça nada em troca nem ganhando, directamente, nada com isso, espanta-me e muito.
Este caso de hoje é um exemplo de sinal contrário.
A TSF faz-se eco de uma notícia falsa.
Que «em Portugal já tinha morrido mais gente nas estradas até hoje, do que no ano passado inteiro».
Mal ouvi esta calinada, logo de manhã, deitei as mãos à cabeça!
Basta ir seguindo a evolução dos números mensais que têm sido publicados pela GNR, para se perceber que nada disso podia ser verdade. A não ser que em Agosto tivessem morrido 300 pessoas. "Só" morreram 76...
Esse era o trabalho do jornalista.
Que sistematicamente o não faz.
Ninguém, na redacção da TSF, descobriu esta calinada.
A LUSA teve um lapso normal, porque lidar com números é missão impossível para os jornalistas, sabemo-lo bem.
Nas rádios e na televisão, na mesma notícia não são capazes de repetir o mesmo número duas vezes sem que o erro cometido seja de uma enormidade absurda (ex: «5.000 milhões de euros foi quanto o estado arrecadou de impostos».... e logo a seguir: «o estado consegue assim arrecadar 5 milhões de euros...»
Isso é o pão nosso de cada dia.
Ora este lapso da Lusa que confundiu (naturalmente) "o ano passado" com o "período homólogo" do ano passado, parece que toda a imprensa distraída o copiou.
Espírito crítico? Zero!
Confirmação de dados? Zero!
Vai daí, hoje temos o espectáculo de vários jornais virem com esta notícia falsa e rocambolesca.
E o forum TSF acabou por se esvaziar, com um aflitivo Carlos Magno a meter os pés pelas mãos e a tentar minimar o prejuízo....
Com uma classe jornalística com esta qualidade, como é que a mais miserável classe política da europa não há perpetuar-se no poder?