Ex.ma
Assembleia Municipal de Seia,
Minhas Senhoras e meus Senhores
Queridas Crianças e Jovens aqui presentes:

O Partido Social Democrata vem, neste dia de Alegria, saudar e comemorar o nascimento da Democracia directa e plural Portuguesa!
Estamos aqui, todos juntos, para relembrar Abril de 74.
E, nessa lembrança, valorizar a Democracia renascida na Terra que nos viu nascer e que acolhe as nossas vidas, anseios, projectos, avanços e retrocessos de que, em suma, as nossas existências se compõem.
Abril nasceu da vontade, da revolta, da inteligência, da impossibilidade da continuação da sustentação da ignomínia, da censura, da força bruta, da mentira!
Do apodrecimento natural de uma sociedade sobrevivente à 2ª guerra mundial embora a ela poupada por quem, apesar disso, a não poupou à fome, ao atraso e ao descrédito internacionais, ostracismo de que a frase «orgulhosamente sós» é ex-libriis, ainda hoje, em qualquer parte do mundo lusófono.
Alijada em si própria, uma organização repressiva e autista que já não possuía bases sociais de sustentação muitos anos antes de Salazar ter caído de uma cadeira sem costas no forte de Oeiras em 6 de Setembro de 1968 - precisou esse mesmo estado repressivo e moribundo de mais 5 anos e meio, ainda, para que uma nova oportunidade de Liberdade e Democracia se conseguisse emancipar por via de uma revolta militar que, se realizada na América latina se denominaria apenas de Golpe de Estado, mas que, felizmente, dado o apoio popular espontâneo que lhe sucedeu, o Mundo civilizado acabou por reconhecer como “Revolução Democrática” – ao contrário do que havia sucedido poucos meses antes em Santiago do Chile, a 11 de Setembro de 73. Aí, forças homónimas às que mantinham, em Portugal, Marcelo Caetano no poder, conseguiram organizar-se e destituir o libertário Salvador Allende que acabou por ser vilmente chacinado às suas mãos.
Nixon, na altura o todo-poderoso Senhor do Mundo, demitir-se-ia em 9 de Agosto de 74, na sequência de um escândalo de espionagem interna denominado Watergate.
Mas Frank Carlucci – o seu braço direito e protegido de Rumsfeld - continuou a ser o director máximo da CIA.
Nunca saberemos quem seria o seu concorrente, o responsável máximo da KGB, em Portugal.
Nem da Mossad Israelita, que 2 anos antes de Abril, fez a primeira incursão anti-terrorista de que há memória, em resposta à indignidade do que aconteceu nos jogos olímpicos de Munique.
Para se perceber o que se passou em Portugal, naquela época, têm que se ter em consideração todos estes acontecimentos contemporâneos e muitos mais.
1974 - É neste contexto, em plena guerra fria, que está prestes a terminar a guerra do Vietname com pesadíssimas baixas para os EUA.
Frank Carlucci seria destacado para embaixador dos Estados Unidos em Portugal. Cargo que exerceu de 74 a 77.
Estava há pouco tempo instalado na sua embaixada quando se desenvolveu a revolta militar que provocou a Revolução dos cravos na madrugada do 25 de Abril.
Acordam, hoje, muitos Historiadores, na tese de que o seu trabalho terá sido o de mitigar a revolta armada para que de Portugal se não fizesse uma nova Cuba. Outros defendem que os EU pretendiam transformar Portugal num segundo Chile.
Nem uma coisa nem outra aconteceu.
Nem sempre quem tem mais força ganha.
Que o digam os soldados portugueses que há 13 anos morriam inutilmente por terras de África, defendendo o primeiro e último império mundial: o português.
Terão feito, os EUA, o mesmo que os nossos vizinhos, quase 600 anos depois de Aljubarrota:
«Se não os consegues vencer pela força, há que tentar vencê-los pela inteligência».
Acontece, de facto, que ao país com o segundo maior índice de analfabetismo da Europa, é eminentemente mais fácil conquistá-lo pela alienação do que pela força.
Srs Deputados, minhas senhoras e meus senhores, crianças e jovens:
O que hoje parece ser inquestionável, amanhã será mentira!
Que o diga Maximilien Marie Isidore Robespierre, que acabou sem cabeça na mesma guilhotina que mandou construir a Joseph Ignace Guillot para resolver o problema a Luís XVI, guilhotinado em 21 de janeiro de 1793 e à Rainha Consorte Maria Antonieta, 6 meses depois.
Robespierre terá sido o último a ficar sem cabeça na máquina que mandou construir para utilizar no povo que discordasse dele.
Falo-vos de Robespierre em França, que morreu apenas 40 anos após o terramoto e Tsunami de Lisboa, que Pombal mandou reconstruir, logo a seguir.
Para além de fazer tão bem a uma Lisboa destruída, Pombal foi também um ditador e um perseguidor de «conspiradores». Que o digam os Távoras….
Para se perceber o presente, tem que se entender o passado.
Nenhum acontecimento histórico tem uma só leitura. Nenhum facto uma só interpretação ou consequência.
Abril será sempre uma referência de Liberdade, de Livre Arbítrio, de restituição da Dignidade perdida por um povo milenar – o primeiro e último Império do Mundo Civilizado que ainda hoje – 900 anos depois, se chama pelo mesmo nome – Portugal!
Para que consigamos, todos juntos, entender a profundidade da data que hoje celebramos, é fundamental fazer um esforço Patriótico de recordar a História do Portugal antigo e Moderno. Só assim se poderão entender os fenómenos sociais que se sucederam ao longo dos tempos.
O Partido social democrata, esta congregação de vontades e ideais que é um Partido Político - não irá aproveitar este momento de Alegria para fazer publicidade a si próprio.
Pugnamos pelo Concelho de Seia e por ele somente.
Mas é imperioso que denunciemos que 33 anos após Abril, Portugal não pode continuar a manter os índices civilizacionais que o envergonham perante o mundo desenvolvido.
E que também não é com meras operações de cosmética, arranjando números para Europeu ver, que o país mais antigo da Europa em termos da manutenção do seu território ganhará credibilidade para se poder afirmar, hoje, junto dos seus pares.
Naquela madrugada, os Capitães de Abril, fosse por golpe de Estado ou Revolução, abriram as portas para uma Democracia que esteve, logo a seguir, mortalmente ameaçada.
Eanes repôs a Verdade da História, estabilizando uma sociedade em que, à semelhança do que tinha acontecido 60 anos antes, ninguém se entendia.
Fizeram-no Presidente.
A Democracia orgânica começou, titubeante, a funcionar num país dela arredio.
Mas os maiores problemas das populações não ficaram resolvidos.
Nem então, nem agora.
Seia, desde 76, desde o início do poder local democrático, conheceu apenas uma única sensibilidade político-partidária.
O concelho nunca quis ser gerido pela filosofia que preside à esmagadora maioria dos países desenvolvidos por essa Europa fora.
Mas era importante que o tivesse querido, mesmo que transitoriamente, como a alternância democrática prescreve e aconselha.
Quanto mais não seja porque assim não pode assacar a outrem quaisquer responsabilidades pelas eventuais dificuldades que o Concelho atravessa.
Durante um único mandato de 4 anos um candidato que vestiu as nossas roupagens governou Seia. Mas a filosofia da sua governação – todos o sabemos – era a mesma pela qual sempre se tinha pautado. A mesma.
Cá está a prova de que uma mera operação de cosmética não aporta mais-valia para um concelho, para uma região, para um país.
Para se ter êxito na prossecução de quaisquer reformas políticas é preciso ser-se sério, transparente e inteligente.
Não basta mostrar-se, apenas, decidido, e fazer orelhas moucas aos protestos das populações e olhos cegos à evidência que a todos choca.
É necessário que se saiba o que se está a fazer, o que se está a ganhar para o nosso concelho e - fatalmente ao escolher - do que se abdica, também.
Mais do que cantar repetidamente loas à madrugada de Abril, há que tentar perceber o que se ganhou e o mais que se poderia ter ganho na sequência das alterações político-sociais que Abril nos trouxe.
E o que vemos hoje, 33 anos volvidos, é que se ganhámos muito em Democracia e Liberdade, outro tanto não o podemos dizer relativamente ao progresso e ao desenvolvimento do nosso concelho.
Seia tem perdido, efectivamente, sucessivas oportunidades para o seu desenvolvimento, desde 74.
Porque nunca teve uma visão estratégica sustentada para o seu futuro a médio prazo.
Durante estas últimas 3 décadas, Seia foi-se simplesmente acomodando aos fluxos populacionais migratórios que nela entraram e saíram, em consequência dos ajustes sociais de uma economia baseada em grandes indústrias que, uma após outra, acabaram por soçobrar às mãos de uma economia globalizadora que não perdoa insipiências nem amadorismos.
Mas, à medida que as grandes empresas fechavam, não houve a visão estratégica de procurar, para as populações, alternativa.
Tudo se deixou acontecer, naturalmente.
Não se procurou inverter o fluxo de abandono das sedes de freguesia, criando condições ou expectativas para quem as não tinha.
E não teve.
Por isso nos abandonou.
Em dez anos apenas, Seia desertificou-se a um ritmo alucinante.
Temos, hoje, 10 mil pessoas a menos, pessoas válidas, activas, que gerariam riqueza, em comparação com o que tínhamos na década passada.
A continuar a desertificação do concelho a este ritmo, em breve os problemas da saúde, do ensino e do pleno emprego estarão resolvidos.
Mas da pior forma.
Estudos credíveis e recentes apontam para um período de 20 a 30 anos até que o interior se desertifique completamente.
A História e as gerações vindouras não nos perdoarão se deixarmos morrer um concelho que recebeu o seu foral das mãos de D. Teresa, em 1136, muito antes de Portugal ser Portugal.
Temos, provavelmente, em nossas mãos, a última oportunidade para estancar a desertificação e encarar o nosso futuro a curto prazo.
Não temos muito tempo.
Mas temos que ter, por isso, muita força e determinação.
Possuímos, felizmente, uma situação estratégica que nos traz uma vantagem enorme relativamente a outros concelhos limítrofes: a Serra da Estrela.
Desde Marques da Silva que a nossa Serra da Estrela nos dá riqueza.
Nos dá energia.
É a hora, no entanto, de começarmos a aproveitar uma riqueza bem maior que ela nos tem querido dar e nós temos recusado receber.
O Turismo é a principal Indústria em todo o mundo e a mais florescente, crescendo à razão de 5% ao ano.
No nosso Concelho há condições naturais para dele tirarmos partido a todos os níveis: Turismo Histórico, Eco-turismo, Turismo Aventura, Turismo de repouso e contemplação, Turismo em Àreas Protegidas.
Mas teimamos em fechar os olhos à Serra. Teimamos em não aceitar o que ela tem, todos os dias, para nos oferecer.
Porque ela oferece-nos calma, tranquilidade, cultura, História, repouso e, ainda por cima, muita riqueza.
A Serra da Estrela quer ajudar Seia.
Basta olhar para ela todos os dias de manhã.
Um tesouro imenso de beleza, de harmonia, e de riqueza à espera de quem tenha a visão para abrir o cofre e dele se apoderar.
Não o fizemos ainda.
Outros, sim.
Do outro lado da serra.
Outros já nos mostraram que é possível.
Que muito do desenvolvimento que auferem daí advém.
Que muita da riqueza que ostentam a ela – à Serra da Estrela – a devem.
E nós continuamos parados no tempo.
Urge uma visão estratégica lúcida para o Concelho.
Urge que se faça qualquer coisa a mais do que gerir simplesmente o dia a dia, cada um deles mais triste, cinzento e vazio que o anterior.
Urge que estanquemos a desertificação galopante.
Urge um grito de «basta» contra o que nos está a acontecer.
Continuar de braços caídos, continuar resignados à nossa sorte é o pior que podemos fazer.
A nossa Sorte é o que dela fizermos.
E se outros já não foram a tempo de estancar a sangria populacional nas suas Terras, nós acreditamos que ainda vamos a tempo de o conseguir na nossa.
É preciso um novo 25 de Abril. Uma nova revolução para o nosso oncelho!
Não de Liberdade porque essa, felizmente, e apesar de todas as tentativas para a sua limitação, ainda a temos.
Mas de visão estratégica, de empreendedorismo, de labor, de crer que é possível inverter este estado de coisas.
É preciso, pelo menos, tentar!
Os nossos filhos, que, tal como os nossos pais, já hoje voltam a ter que percorrer dezenas de quilómetros para frequentar a Escola, nunca nos perdoarão se o não fizermos.
Viva o 25 de Abril!
Viva Seia!
Viva Portugal!