novembro 27, 2006

Aulas de substituição - 2

Há dias, o mesmo professor da história anterior, a que chamaremos agora apenas de João Tilly, para que nunca se perceba de quem se fala, evitando as perseguições dos grunhos e dos caciques tão características do tempo do estado Novo e do governo actual, foi substituir um professor de educação física.
Eram só 45 minutos(!!!!)
Não lhe parecia que desse tempo para os alunos se equiparem, desequiparem, tomar banho e fazerem alguma coisa que jeito tenha, mas o que percebe esse prof de matemática de educação física?
Quem percebe dessas coisas todas é o Walter Lemos, não é? E se ele diz que dá...
Chovia que Deus a dava.
Não se podia vir cá para fora.
Ficámos todos lá dentro. Mas os rapazes querem jogar futebol (!) e as moças, volei(!).
E só há um espaço.
- Ó sr Professor: deixe-nos ocupar aquele canto que os rapazes podem jogar no resto do pavilhão à vontade - pediram as moças.
- Mas isso é perigosíssimo! Se vem uma bolada vocês nem dão conta!, respondeu o prof baby sitter.
- Não! a gente já está habituada! Nas outras aulas de substituição também é assim que fazemos.
E assim foi. O prof foi-se colocar estrategicamente a proteger as moças das boladas inadvertidas dos futeboleiros e a coisa até correu bem.
Às páginas tantas, o professor viu umas moças na rua, à porta, enquanto lá fora se fazia sentir um vendaval tremendo e uma chuva copiosa tocada a vento que as molhava por completo.
Abriu-lhes a porta, o que - veio a saber - era «terminantemente» proibido.
As moças absolutamente encharcadas nem queriam acreditar que o prof substituto as estava a convidar a entrar e a fugirem da chuva gelada porque «Não pode entrar quem não for da turma!» - garantiram.
Mais um processo disciplinar a que esse professor teria que responder se se soubesse o seu verdadeiro nome e o verdadeiro nome da Escola em que lecciona, à qual chamaremos apenas Dr Tantos de Tal, para despistar.
Bem. Os 45 minutos lá se passaram. Rapazes e raparigas jogaram e divertiram-se imenso, o prof jogou 3 minutos de ping-pong com o seu pior aluno e ainda conseguiu apanhar 2 ou 3 bolas que iam direitinhas à cabeça de uma das alunas e, no fim, quando toda a gente estava a equipar-se para ir embora, um monumental choro irrompeu do balneário dos rapazes.
- «Roubaram-me o telemóvel!» - Chorava um aluno visivelmente em pânico.
- O que vou fazer agora?
- Agora ficas sem ele! - riam os colegas. Quem te mandou guardá-lo na mochila?
- Vai fazer queixa ao Directivo! - alvitrava um.
- Para quê? Achas que te vão dar um novo? - respondia outro.
E o miúdo chorava e soluçava como uma Madalena.
O professor, embora falso, estava muito incomodado. Quase a tocar para a saída, as camionetas à porta, era mais que evidente que o telefone tinha ido à vida...
Foi então que o prof substituto teve uma ideia brilhante, à TVI.
- Espera lá! Já que ali não estava o Inspector Max, que descobre todos os casos que aquele actor canastrão nunca consegue resolver, poderá este prof substituto e baby sitter acumular as funções do imbatível cão?
Vejamos: Só entrou ali quem ali estava, pensava ele.
E, em conjunto com um outro professor de educação física (embora o de matemática é que tivesse sido escalonado para substituir o seu colega!) decidiram informar os alunos que ninguém saía dali sem o telefone aparecer.
O bluff deu resultado.
Passados 5 minutos o prof substituto foi revistar o balneário e, escondido, lá estava o telefone e o carregador!
O ladrão teve receio do faro apurado do prof substituto / baby sitter / inspector e de ser apanhado com a boca na botija!
Elementar, minha cara Maria de Lurdes!
O miúdo ficou radiante, com a verdadeira Felicidade estampada no rosto ainda lavado em lágrimas, e o professor substituto afastou-se em passos decididos em direcção ao por-do-sol, naquela noite cerrada.
Assim se passou mais uma aventura e uma aula de substituição deste professor / detective.

Publicado por JoaoTilly em novembro 27, 2006 09:24 AM
Comentários

Eu acabava com isso em 3 minutos....
Estava aqui a ver... afinal quando é que apareceram os primeiros gira-discos electromagnéticos...
Depois, como sou utilizador do Protools desde 1993(www.digidesign.com) e tenho que escrever uma coisa sobre Projectores de Som (Horn Loudspeakers), encontrei este site e fiquei a ver como é que o microfone tinha aparecido, pois o capítulo seguinte tem este sugestivo título: "Music fot the Masses"... enfim..
Mas se não quiseres falar de acústica e electro-acústica aos jovens do mundo rural (ostracizado e desquecido), sempre lhes podias explicar porque é preciso um diferencial num automóvel...
Garanto-te que esse tempo se tornava mais útil que o que perdemos nestas tretas dos blogues...

Afixado por: AnTónio Tilly em novembro 28, 2006 01:14 AM

Respondo nos comentários dos próximo post a essas "sugestões" impraticáveis que aqui deixas.

Podes tentar falar do que tu quiseres, na substituição de um prof de educação física, que ninguém te vai ouvir.
Primeiro porque tens que ir ter com eles ao pavilhão onde eles estão equipados à espera do prof verdadeiro.
Demoraram o intervalo a equipar-se e estão prontos para correr, saltar, jogar.
Tinhas que os mandar vestir, esperar por eles e atravessar outra vez a escola, debaixo de chuva torrencial, como foi na passada sexta-feira para os levares para uma sala. Eram os 45 minutos todos e uma tristeza imensa estampada nos rostos das crianças que estavam preparadinhas para «jogar à bola» ou fazer qualquer actividade física.
De preferência violenta e de competição, para poderem dar largas à energia acumulada dentro de salas de aula desde as 8:45 até às 16:45h com meia hora para almoçar e outra meia passada na bicha da cantina.
Mas não adianta nada, isto.
Não sabes do que estou a falar.
Tudo comenta a vida dos professores mas ninguém - a não ser eles - fazem a mínima ideia do que estão a falar.
Mas falam. E opinam.
Se fosse eu fazia isto, se fosse eu fazia aquilo.
Enfim!
Mas estás convidado.
Aparece na próxima sexta feira às 16:45h (deves estar em Seia) na minha escola, para dares uma prelecção sobre o que tu entenderes aos miúdos do 6º ano que iam ter educação física.
Quero ver como te portas à frente de 20 diabretes eléctricos de 11 anos, no auditório...

Sei que é uma guerra perdida esta de se ser, de facto, professor.
Escrevo isto, neste blog da treta, porque pode ser que alguém leia e perceba do que estou a falar.

Afixado por: João Tilly em novembro 28, 2006 06:17 AM
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