novembro 10, 2006

Quem se importa com os professores?


José Gil - Visão, 9 de Novembro de 2006.

O que impressiona nas intervenções mediáticas dos responsáveis do Ministério da Educação (ME), é a ausência total de uma pa­lavra de apreço e incentivo para com os professo­res.
Quando ela vem, parece forçada, demasiado geral, demonstrando uma incompreensão pro­funda pelas condições do exercício da profissão.
Os últimos rumores (verdadeiros) sobre as eventuais oito horas lectivas obrigatórias, mais o corte das «pausas» do Natal, Carnaval e Páscoa, provam que as autoridades encarregadas de con­ceberem a política educativa do nosso país não sabem - ou não querem saber - o que implica ser professor.

Fica-se com a sensação de que o ME tem do professor a ideia de alguém que goza de privilégios imerecidos, que sobe «à balda» na carreira, que falta às aulas quanto pode, que se está nas tintas para o aluno, que se esquiva o mais possí­vel ao trabalho e ao esforço.

O cúmulo deste intolerável estado de coisas é que usufruiria - como se faz crer aos por­tugueses - dos melhores salários em comparação com os equivalentes euro­peus.
O imperativo da política educa­tiva formular-se-ia, pois, assim: «Vamos pôr tudo isto na ordem.» Vamos varrer o despesismo, a «balda», o desperdício, o oportunismo, o laxismo, a facilidade, a incompetência - todos esses vícios da maioria dos docentes que teriam trans­formado a escola num lugar para se vi­ver de boas rendas, trabalhando pouco, mal, e gozando de inomináveis rega-lias e do maior tempo de ócio. Imagem tão pregnante que as excepções - «aquele professor que nos marcou para toda a vida...», frase estafada que, pelo menos, diz a parte mínima que compõe a minoria - seriam incapa­zes de a combaterem e de a apagarem.

Eis o que explicaria os excessos discursivos (e não só) dos responsáveis do ME. Tem-se a nítida impressão de que não gostam dos professores - por mais que queiram dis­tingui-los dos sindicatos.
Ora, o que está em jogo no actual debate sobre a educação, é a transformação de uma situação há muito desastrosa, criando condições para um ensino de qualidade, à altura das ambições da «modernização» global do País, proclamadas pelo Governo.
Nesse quadro, a Edu­cação constitui um pilar essencial do projecto governativo do primeiro-ministro: se ele falha, falhará todo o projecto. Neste momento constata-se que o clima das escolas (professores cansados, abatidos, deprimidos - dos que pertencem às «excepções») não contribui para a boa aplicação dos no­vos estatutos que aí vêm.

Quem se importa com os professores?
Questão que po­deria deslizar, perigosamente, para esta outra: quem se im­porta com o ensino?
Quem, nesta reforma, pensa no tipo de trabalho, material e imaterial, que o professor fornece, para que a relação mestre aluno produza os efeitos esperados?
Relação extremamente delicada, que não se reduz à trans­missão de conhecimentos, mas que exige do professor um investimento múltiplo, emocional e intelectual, que provoca um desgaste psíquico e existencial extremo.
Que se me permita citar umas linhas que escrevi noutro local: «O investimento na docência convoca forças de toda a ordem, os dons, a capacidade de controlar e de se auto controlar, a plasticidade para se adaptar a e lidar com cada aluno em particular, o equilíbrio incessante entre o papel de docente e o de educador, o constante brio que se exige de si (o terrível superego do professor que o força a ter a melhor imagem de si para estar em paz consigo mesmo), a responsabilidade que assume pelo aproveitamento dos alunos, etc. Ele não investe uma ou duas «competências», investe na aula a sua existência inteira”.

Mas não são só o espírito e os métodos pedagógicos que devem ser considerados dentro de um contexto mais alargado.
É a própria noção de «racionalização» do ensino que tem de ser repensada. A ac­tual política educativa parece padecer de toda uma série de disfunções e desfasamentos: muda-se o estatuto da carreira docente, com novas tarefas, mais trabalho, mantendo-se inal­terados os conteúdos e negligenciando a formação necessária dos maus professores; instauram-se regras de avaliação, mas não se eliminam os compadrios e as conivências; exigem-se boas vontades para certas tarefas, e quebram-se as vontades não oferecendo contrapartidas; voltam-se os pais contra os professores, estes contra a instância que os tutela, o pessoal administrativo contra os professores, e já mesmo se formam alianças alunos - pais contra o Ministério. . .
Tudo isto é mau para o ensino e para a educação. Como se a «racionalização» do ensino básico e secundário, ao preocupar-se apenas com alguns dos seus aspectos, e sem visão global, induzisse necessariamente outras formas de irracio­nalidade e anarquia.»

José Gil - Visão, 9 de Novembro de 2006.
Cortesia de José Ruas

Publicado por JoaoTilly em novembro 10, 2006 09:23 PM
Comentários

O outro diz que somos sempre os mesmos aqui ... Pois somos! Tal como na Educação dos filhos de Portugal!
Eventualmente, vimos aqui alguns, menos tímidos que outros.
De resto, estamos lá sempre. E se estamos em luta é porque sabemos bem o que significa, a médio prazo, esta manobra inqualificável do pior governo (em termos de mossa feita aos cidadãos) que temos desde a última ditadura.
O que me enerva é a burrice instalada. Como é possível ter-se resultados como os de hoje nas sondagens?
Não reajam não!
Há pais conscientes e exemplares mas ... olhem que são infelizmente uma minoria em Portugal.

Afixado por: abaixoasinistra em novembro 10, 2006 11:52 PM

Hoje tudo pode acontecer!
Numa Escola do Distrito de Aveiro, os professores que fazem greve são substituídos, os alunos nunca deixam de ter aulas!!!
Quando Álvaro Cunhal faleceu, o Estado mandou colocar a bandeira Nacional a meia haste. Claro que esta escola não a colocou! Mesmo quando o ME (depois de muitos telefonemas) ordenou que o fizesse. Claro, não colocaram!
Uma aluna (14 anos) tinha um panfleto da JCP na sua carteira, junto aos livros. Foi chamada ao C. Executivo. Depois de um interrogatório de várias horas, querendo saber; quantos alunos da Juventude Comunistas existiam naquela escola, qual a actividade da aluna e dos pais, desde quando estava inscrita nessa organização.
Como a aluna não denunciou ninguém, dizendo que só ela pertencia e não conhecia mais ninguém ficou suspensa. O encarregado de educação foi chamado e interrogado. A aluna está suspensa, por alguns dias. O caso prosseguirá os trâmites jurídicos legais.
Tudo isto na mesma escola.
Há fascismo em Portugal! Há professores que tramam os seus colegas, das formas mais baixas e pidescas!
É o Portugal no seu melhor!

Este desgoverno, conseguiu “virar”a cabeça de muitos cidadãos.
Porém, a maioria sabe e sente que é uma das profissões mais dignas e de grande responsabilidade, revoltando-se pela forma como estão a ser tratados!

Excelente blog!

GR

Afixado por: GR em novembro 11, 2006 03:04 AM

Na viragem do obscurantismo para a liberdade sentiu-se uma coisa estranha... aqueles que impunemente viraram de um sistema fascista para um outro a que queríamos dar o nome de liberdade, de democracia e que sorridentes agora dão de novo cartas. Durou uns dias... rápido se voltaram a acantonar. Pudera, aqueles que para o anterior e cavernoso sistema trabalhavam mais não fizeram que mudar a camisa.
Já alguém o dizia, quais cravos quais carapuças! Havia uma série deles que deveriam era ter sido celindrados. Deveriam ter sido julgados e impedidos de funcionarem em regime democrático todos aqueles que foram os caciques do fascismo... continua-se sem se aprender nada. Agora aguentem-os!
Mas como estamos numa democracia - TUDO É PERMITIDO?
Que geração rasca...

Afixado por: o sinistro em novembro 11, 2006 09:55 AM

Caro GR
O contrário também acontece, acredite!
Numa escola da cidade do nosso professor Tilly, cujo director executivo é um antigo activista do PC, ex-candidato comunista à câmara local, além de ter deixado de fazer ele próprio greve, substitui agora docentes e não docentes em greve e aplica de forma autocrática políticas mais radicais do que a própria ministra estabelece e que deixariam envergonhado qualquer político de direita...
Como diria o amigo João Norte: piores que a própria ministra são os directores executivos mais papistas...

Afixado por: Chaplin em novembro 11, 2006 06:00 PM

É bem verdade. É de facto uma aviltante vergonha e um atentado aos colegas e aos ideiais de Abril.
Como é que um reconhecido comunista é capaz de se tornar pior que um fanático de extrema direita mal se vê com algum poder na mão é coisa que eu, professora dessa escola, e muitos colegas meus nunca entenderemos...
É para isto que elegemos conselhos directivos?
Para nos reprimirem ainda mais do que a ministra obriga?
O meu voto e o da maioria dos professores dessa escola ele nunca mais terá.

Afixado por: Chocada! em novembro 11, 2006 07:40 PM

O maior é cego aquele que não quer ver!!!

Mas ainda andam perdidos pelos sindicatos, partidos à espera de uma qualquer coisinha, ó faz favor!!??!!

O pessoal cá em Portugal é do caraças. Lembram-se da virgem em Fátima. O pessoal quando lhe cheira a carcanhol são mais fanáticos que o pobre que rouba uma laranja e que é capaz de ser fuzilado, enforcado,... sabe-se lá!!!

EM QUE PAÍS VOCÊS VIVEM?
Alice no país das maravilhas!!!

Oiçam lá o monte de sindicatos, alguma vez foi capaz de se desligar do sistema pão para a boca, nada para a mente.

Os vossos pedidos, mesmo inúteis

NUNCA VENCERAM A INOPERÂNCIA DOS SINDICATOS
PERANTE

Obras "à rica" TGV, OTA,..., , com utilidade discutivel


O SISTEMA SOMOS NÓS TODOS!!!

Afixado por: Antonio das Neves em novembro 11, 2006 09:33 PM

"...ausência total de uma pa­lavra de apreço e incentivo para com os professo­res!"
É verdade que uma palavra pode fazer milagres qd se trata de motivação numa organização. Mas não esqueçamos que para um colaborador de uma empresa, não deve haver maior motivação que o ordenado no final do mês - do mesmo não se podem gabar muitos dos trabalhadores portugueses que já levam 3/4 meses de atraso nos seus salários!
Apenas peço que pensem um pouco sobre isso!

Afixado por: Paulo Moreira em novembro 13, 2006 09:46 AM

Já que estamos numa onda de referendos, propunha que fosse feito um referendo no universo dos professores portugueses para ver qual o nível de satisfação com a governação actual!

E a esses que acham que os professores são uns priviligiados a nível do salário, façam só algumas contas:

Professor colocado a 720 kms de casa!


Afixado por: Zé Paulo em novembro 13, 2006 11:24 AM

A par de se saber quem se importa com os profs. porque não tentar saber quais os professores que se importam a Educação? Até parece que "os professores" constituem uma entidade única. Acabam, aqui, de o explicar. É que há muita gente no sistema, que é impessoal porque grande de mais. E os que têm brio e orgulho no que fazem, ainda se prejudicam. Isto tem mesmo que mudar... a bem dos verdadeiros professores, ou seja, a bem do ensino.

Afixado por: AnToino em novembro 14, 2006 12:19 AM

À boa maneira de Salazar: dividir para reinar.
Ponham a ministra a dar 8 horas diárias de aulas, a aturar filhos de todas as mães sem educação ou sentido de dever ou de respeito, e talvez ela mude de ideias.

Afixado por: Casper em novembro 14, 2006 03:43 AM

Prezado João Tilly

Acabo de traduzir o texto de J. Gil para o francês e mandá-lo a vários correspondentes (listas privadas). Temos problemas bastante parecidos aqui na França. Há pouco tempo a candidata socialista Segolene Royal disse que quer que os professores trabalhem 35 horas por semana dentro das escolas. O mesmo desprezo pelo conteúdo real do nosso tempo de "folga"… E o atual ministro De Robien já está a aumentar o tempo de trabalho de várias categorias de professores !
Agora o webmaster do site "Sauver les Lettres" (75 000 conexões por mês) me propõe publicá-lo. Queria saber se o senhor teve que pedir a permissão do autor antes da reprodução no seu blog, o se tal procedimento lhe parece inútil. Caso fosse necessário, o senhor sabe o e-mail do autor do texto ?
Muito obrigado pela resposta.
JJM
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Caro Jean-José (por acaso tem o meu nome em Francês...)
Não é necessário pedir a autorização de publicação de um texto que já é do domínio público.
Por cortesia - como eu fiz - deve mencionar-se o autor e a fonte.
Mas o texto passa a ser do domínio público a partir do momento em que é publicado num jornal.

Afixado por: Jean-José Mesguen em novembro 17, 2006 11:15 PM
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