agosto 12, 2006

Governos Civis: o paradigma da inutilidade.

Surpreendido por verificar que todos - repito: todos - os governadores civis que aparecem a falar para as televisões sobre os incêndios são mulheres, pus-me a matutar numa frase de Gugu (Guterres, o refugiado dos refugiados) que em 2000, para as TVs, afirmava, com aquela nula convicção que se lhe reconhecia, que «os cargos de Governador Civil eram inúteis e tendiam a extinguir-se a curto prazo».
Afinal quem se extinguiu foi ele.
Os «governadores» de coisa nenhuma e ainda por cima «CIVIS» (o que deixa naturalmente prever que a qualquer momento se poderia abrir um nicho de mercado para a tacharia MILITAR também...) cá continuam a fazer coisa nenhuma, a não ser preocuparem-se em elaborar documentos extensíssimos com as suas intermináveis competências - sinal evidente de que não fazem nenhum.
E a não perder esta oportunidade que os incêndios lhes dá para aparecerem nas TVs justificando, deste modo, a sua triste existência.
As questões são:
Para que é que servem, de facto, os governos civis e porque é que os que têm aparecido nas TVs são todos mulheres quando foi justamente aprovada a lei das cotas por não haver suficientes mulheres na política?


Competências:
Como representante do Governo compete ao Governador Civil:
Exercer as funções de representação do Governo na área do Distrito;
Portanto: estar presente em inaugurações, inaugurações e ainda em inaugurações.

Colaborar na divulgação das políticas sectoriais do Governo, designadamente, através de acções de informação e formação, diligenciando melhor a sua implementação;
Isto quer dizer: zero.
Para divulgar as políticas do governo há toda a comunicação social e os organismos sectoriais que forem por elas afectados.
Não é preciso que haja mais um organismo a fazer o que fazem os outros.


Prestar ao membro do Governo competente em razão da matéria informação periódica e sistematizada por áreas sobre assuntos de interesse para o distrito, nomeadamente nas áreas da protecção civil, segurança interna, policiamento de proximidade, questões económico-sociais e investimentos a realizar no distrito;
É tudo zero. Os relatórios da protecção civil estão a cargo da mesma e devem ser entregues directamente ao ministério da administração interna. Em matéria de segurança e policiamento os relatórios estão a cargo das várias polícias e são entregues ao mesmo ministério.
Os relatórios económico-sociais e sobre investimentos são produzidos pelos vários organismos existentes em cada distrito e estão na posse do gabinete competente nas câmaras municipais.
Portanto aqui o governador civil também não faz nenhum. Limita-se a pedir copias dos relatórios e enviá-los para quem já os tem em seu poder: o governo
.

Preparar informação relativamente aos requerimentos, exposições e petições que lhe sejam entregues para envio aos membros do Governo ou outros órgãos de decisão;
O governador civil faz de carteiro? É que todas as petições, exposições e requerimentos são entregues directamente nas repartições competentes ou enviados aos gabinetes dos ministros. Para que é preciso mais um organismo a receber os documentos dos cidadãos?

Atribuir financiamento a associações no âmbito do distrito.
Ora, aí é que se começa a descortinar alguma utilidade.
Para além dos subsídios do governo e dos subsidios das câmaras e dos subsidios dos organismos directamente dependentes dos governos e dos subsidios dos organismos que fazem parcerias com as câmaras, há também os subsídios dos governos civis.
Mas acontece que o dinheiro para essa miríade de subsídios vem todo do mesmo sítio: dos nossos impostos e das nossas multas e coimas, pelo que é perfeitamente estúpido que se paguem milhões àqueles que vão distribuir as migalhas.


Desenvolver todas as diligências necessárias e convenientes a uma adequada cooperação entre os serviços públicos desconcentrados, de acordo com as orientações dos respectivos membros do Governo, e entre aqueles e outros órgãos administrativos localizados na circunscrição distrital;
Esta felizmente ninguém entende.
Mas «Serviços públicos desconcentrados» é uma frase lindíssima...

Parabéns ao assessor que se lembrou desta. Justificou o ordenado desse ano.


E por aí fora.
Os mais curiosos que queiram desatar à gargalhada com a ridicularia da argumentação sobre as atribuições dos governos civis, podem ir ao site do Governo civil do Porto, por exemplo.
E, já agora, deitem uma olhada ao organograma do mesmo governo civil e imaginem as dezenas de boys que ali «trabalham».
Entre o gabinete de apoio e o chefe de Gabinete estão, à esquerda, os adjuntos e, à direita, os assessores...!

À segunda questão- porque é que só aparecem governadores civis mulheres na televisão - todas as respostas são politicamente incorrectas menos a típica resposta tuga: por coincidência.

Publicado por JoaoTilly em agosto 12, 2006 08:36 AM