Não é primeira vez que me debruço sobre o que denomino de «Estado policial».
Portugal vive crescentemente ensombrado por uma cortina de "fascismo cinzento" como lhe chama António Marinho (autoritarismo perfeitamente descriccionário e totalmente ilegal levado à prática nos mais basilares e diversos patamares da vida do país) no pricípio do terceito milénio.
A História far-se-á - disso ninguém tenha dúvida - e o ambiente pidesco que se vive em Portugal, neste momento, será fielmente retratado para que as gerações vindouras percebam que o conceito Liberdade não pode ter sido assassinado com a jovem idade de 30 anos.
Não pode ser.
A verdade é que o autoritarismo que se vive a todos os níveis, na nossa sociedade, hoje em dia, é qualquer coisa que nenhum democrata de Abril poderia prever, apenas 32 anos após o fim, justamente, desse mesmo autoritarismo - que nunca se poderia ter chamado de fascismo - e que pensávamos ter tido o seu fim nessa madrugada de 74.
Mas não.
Por todo o lado, nas escolas, nas repartições, nos locais públicos, já ninguém se atreve a dizer abertamente o que pensa, com medo - essa grande virtude tuga - de que chegue aos ouvidos dos «superiores» qualquer opinião que não seja literalmente lambe-botas ou rigorosamente trombeteira da «situação» vigente.
Ora, o é que é paradoxal é que este regime de trevas modernas é imposto e acalentado por quem o devia banir, com a maior naturalidade, de norte a sul do país.
O governo da propoaganda que temos não é mais que um mero exemplo do que acabo de afirmar. Esta súbita aposentação compulsiva de 2 delegados sindicais na polícia é disso a mais indesmentivel prova.
Não há, na prática, liberdade de expressão para ninguém em Portugal.
Nem sequer fora das horas de expediente.
Instituiu-se, definitivamente, o «delito de opinião».
Um polícia, um funcionário do estado, deixa - como nos anos 50 - de poder ter opinião. Se a tem terá que a guardar para si. Caso contrário, espera-o uma reforma compulsiva ou pior.
É que a PIDE, que antigamente comportava pouco mais de 600 agentes nos seus quadros, foi substituída pelo seu colega de trabalho, o seu vizinho, o seu cliente, o seu amigo.
Deve haver agora mais de 5 milhões de "PIDES" voluntários em Portugal. 10 milhões de orelhas bem levantadas em todo o lado sempre à cata de ouvir qualquer coisa para enfiar nos ouvidos do seu chefe, do seu Senhor feudal.
Para ganhar o quê, em troca?
Nada. Para ficar «bem visto». Apenas e só.
Esclavagismo intelectual voluntário do mais pindérico que há.
Ser escravo do seu Senhor. Isso lhe basta, ao tuga miserável.
Uma côdea, umas tristes migalhas atiradas ao chão pela mão do dono, como recompensa pela sua fétida actividade diária de «bufo» voluntário, é tudo quanto o atrolhado tuga de badeira ao ar almeja.
Depois, é vê-los: os processos disciplinares à força toda.
Nas escolas, por exemplo, onde não se trafica poder sob forma nenhuma, as pessoas fazem todo o tipo de manobras e sinais para contar umas às outras as novidades e as calinadas dos executivos.
Mas falar abertamente? Protestar e expôr as suas razões de forma leal e democrática? Tá quieto!
O medo impede-as de falar natural e abertamente na sala de professores, ou em qualquer outro local dentro das instalações. E até fora delas!
Mas por que raio?
Estamos, acaso, nalguma nova ditadura que eu não tivesse dado conta?
Mas é que estamos, mesmo.
Em Portugal, neste momento, verifica-se que o poder - por mínimo ou até simbólico que seja - é cultivado e protegido até ao limite da própria vida por quem o detém.
A democracia transformou-se, assim, numa forma rudimentar de autoritarismo. Quem conseguiu o poder de modo nenhum aceita largá-lo, a não ser para exercer um cargo de maior relevância social.
Este regime de autoritarismo anti-democrático, próprio de países sem cultura nenhuma - nem democrática nem outra - necessita de um mecanismo que o proteja dos ataques da democracia e da participação livre das pessoas nos seus destinos: é o que faz o costumeiro caciquismo. E fá-lo do modo mais natural, porque consentido e até cultivado pelas suas vítimas - o povo -, que com esta hedionda prática sacrifica, para além da sua inteligência e livre-arbítrio, a própria Liberdade que lhe deram de mão beijada numa manhã de Abril.
Deram-lha. Digo bem. O exército e os Capitães de Abril. Porque este povo tuga, ao longo da sua História de 863 anos, nunca foi capaz de qualquer conquista pelas suas próprias mãos.