
Caro amigo João Tilly
Estive a ler alguns dos textos que colocaste no teu blog, tendo dedicado particular atenção àqueles que falam da educação. Sendo um assunto que nos levava muito longe e percebendo eu que reconheces que existe um número significativo de docentes, desde o básico ao universitário, que roça o analfabetismo e a “incultura mais boçal”, custa-me a entender que não advogues a Avaliação dos Professores. Não está sequer em causa se a avaliação é aquela que agora é proposta ou outra; o que me parece é que recusas a avaliação “tout court” e falas no descongelamento de Carreiras, termo próprio da função pública que causa arrepios a qualquer pessoa que esteja no mercado empresarial, mesmo sendo empresário e assumidamente de esquerda. O termo Carreira aplicado à função pública é algo que causa suores frios a qualquer utente de um serviço público e é uma mera capa para premiar a antiguidade e não os skills profissionais.
Para quem vive no “mundo real” a carreira até pode (e deve) ser planeada, mas a título individual e em função do que se vale. Ouvir a palavra carreira em empregos “nine to five” (poupem-me à ladainha da correcção dos testes e da preparação das aulas), é algo que me causa uma absoluta repulsa e acho isto muito mais pernicioso que pensar-se e discutir-se se o deputado ganha 3 ou 4 mil euros. Infelizmente, se ganham isso, ganham muito mas muito pouco, pois o objectivo nunca deve ser nivelar por baixo. Aliás, é uma herança muito própria do salazarismo mais bafiento a preocupação que temos com as pessoas que são muito bem pagas por aquilo que fazem. Olhando para o que vejo escrito no blog e só por isso, felizmente não vivo em Seia …
Voltando à Avaliação dos Professores, só temo que, se ela fosse levada a sério, ficássemos com escolas vazias. De professores e não de alunos, claro. Tive até o cuidado de ler duas vezes o teu artigo Greve de Zelo, pois admiti estar enganado. Por um lado, por me parecer que a opinião que aí expressas contradiz em absoluto o que na mesma altura escreves noutros artigos do blog e, por outro lado, porque me pareces estar a apelar a algo que, para muitos dos teus colegas, está em vigor desde o primeiro dia que abraçaram a profissão.
Para finalizar deixo-te uma pequena história que se passou comigo em AGO/SET de 2005. No dia 02/SET de 2005 (6ª) quando viajava da Grécia para Portugal vindo de 8 dias de férias (faço parte do número de pessoas que tem cerca de 10 dias úteis de férias por ano e não 25 ou mais, sendo até daqueles que não percebe o que se pode fazer com 25 dias de férias se fosse para ler, ainda “vá que não vá”), ouço no banco atrás do meu, duas professoras do ensino público a rebelar-se contra a campanha que havia contra os professores, a indecência que ganhavam em relação a quem trabalho no sector privado, etc, etc. É então que surge a questão assassina feita por uma delas : - Mas então como é que fizeste para estes dois dias (5ª e 6ª) ? - Oh pá, olha arranjei atestado !!! Para quem está na iniciativa privada como é o meu caso, esses foram 2 dias de férias em 10 (e não me queixo); mas atrás de mim vinham dois modelos de virtude já com 45 ou 60 dias de férias “nas pernas” e que ainda recorreram ao “atestadozinho da ordem”. Tenham dó e não me venham falar da regra e da excepção.
Avaliem-nos e já !!! Mas recorram a privados para o fazer. Não avaliem uma corporação através de outra corporação.
Sendo repetitivo mais uma vez e como tu bem sabes, entendo que a culpa tem um único rosto e felizmente caiu da cadeira. Esse sim, o “botas”, que nos fez pequeninos, amigos do expediente rasteiro e muito muito pouco virados para a inovação, para a cultura e para a modernidade. E daí, não temos as escolas que queremos, mas sim o sistema escolar que herdámos e esta ministra é mais uma que vai sair chamuscada em fogo lento, apesar de me parecer ter sido aquela que esteve mais próxima de dizer aos professores o que eles realmente merecem ouvir.
Um abraço.
Pedro Fraga