julho 17, 2006

Os exames do 9º ano

Neste país, para se ser bom a Matemática tem que se ser, primeiro, muito bom a Português.


Depois de mais um interregno forçado provocado pela avaria do meu modem e pela falta de tempo que me vem assolando, aqui vão mais umas achegas ao momento particular do ensino que está a viver-se em todo o país.

O exame de matemática foi, uma vez mais, uma manobra propositada doministério para achincalhar os professores de matemática.
Aquilo tresanda a manobra política. Porque nada tem a ver com matemática e muito menos com o ensino em geral.
Tem apenas a ver com a clara estratégia da ministra da educação, que aposta tudo em dividir a classe mais fraca do país – os professores – para lhe continuar a retirar regalias profissionais, umas atrás das outras, poupando assim uns milhões por mês para continuar a pagar os 10 mega-estádios de futebol de Guterres (porque hospitais continuam a não se construir), penalizando todos aqueles que trabalham, dando o melhor de si próprios, na tentativa todos os dias renovada de levar a Luz do Conhecimento às crianças por essas Escolas fora.

Falo dos verdadeiros professores. Aqueles que dão as aulas.
E não os que estão instalados em cargos partidários – como os 10 mil “professores” que se encontram a «trabalhar» no Ministério da Educação.
Mas os verdadeiros professores que se “matam” nas aulas, quantas vezes a aturar todo o tipo de malcriadices a que as famílias e os conselhos executivos disfuncionais fecham permanentemente os olhos, não têm culpa que o ministério não tenha dinheiro para lhes pagar os salários.

Porque os impostos são-lhes retirados, à cabeça, do seu vencimento.
Aqui não há fuga ao fisco.
Se alguém cumpre, em termos de não fugir ao fisco, neste país, somos exactamente nós, os funcionários públicos.
Não temos hipóteses de arranjar engenharias financeiras, como fazem as empresas, para poupar algum ao fim do mês.
Acredito mesmo que, tirando o funcionalismo público, não haja quem que não fuja ao fisco neste país.
Por isso é mais injusta ainda esta «caça ao prof.» que a ministra da educação decidiu abrir aos professores.
E começou, o ano passado, pelos de matemática.

Recapitulemos:
O ano passado – o primeiro ano em que se realizaram exames no 9º ano em Portugal – os resultados de um deles, intitulado «de matemática», foram tão baixos como a qualidade da classe política dominante deste país.
Porque aquele exame não era «de matemática» em parte nenhuma do mundo.
Era, sim, de «interpretação de textos» – longos – e, no final de uma interpretação difícil, em alguns casos, então sim, era «também de matemática».
Portanto, tratava-se do 2 em 1 costumeiro: era um exame de «interpretação + matemática». Portanto, só chegava a ser de matemática para quem soubesse, primeiro, interpretar o que se dizia e o que se pedia.
O que não acontece com 50% dos alunos, claro está.

Esperava-se que, este ano, a coisa abrandasse e pudéssemos assistir a um exame de matemática pura.
Mas ainda não foi desta.
O exame deste ano foi ainda pior, se bem que mais inteligente.
Duas ou três questões de cá-cá-rá-cá asseguraram a todos os alunos – mesmo àqueles que nem sequer sabiam qual era a matéria – um 2.
Evitou-se, assim, o escândalo do 1 em série do ano passado e conseguiu subir-se a nota média.
Por outro lado, o exame de interpretação foi muito mais complicado a ponto de os próprios professores serem obrigados a ler, por mais do que uma vez, cada enunciado de centenas de palavras, para perceber o que se pedia.
Por exemplo, apenas uma questão em 12 – a número 4 - ocupava qualquer coisa como duas páginas.
Eu não tenho o exame de Língua Portuguesa comigo, mas houve quem contasse as palavras dos exames de Português e de Matemática e – imagine-se! – o de Matemática comporta mais do dobro das PALAVRAS do de Português.
Será isto possível?
Só o é, dada a estratégia do ministério de achincalhamento dos professores, de uma forma geral, bem sabendo que ao vulgar tuga tudo lhe passa ao lado. O que fica é a ideia de que os profs. são baldas.
Objectivo cumprido.

Ora eu condeno liminarmente a estratégia e o tipo de exames que o governo Sócras manda cá para fora.
Porque, como disse no início, bem se vê que se trata de meras armas políticas com um objectivo bem determinado: dividir para reinar.
Se os exames fossem de matemática e mais nada, como deviam ser, as questões seriam directas e os problemas claros.
Isto não quer dizer que as questões fossem menos complexas: longe disso!
Podiam até ter dificuldade superior àquela que se verificou este ano, desde que as questões fossem CLARAS e DIRECTAS e não rendilhadas ou escondidas em orações intercalares que são intransponíveis para a esmagadora maioria dos alunos.

Façam isso a Língua Portuguesa – concordo - mas nunca a Matemática, nem a Físico-Química, onde o que se avalia é o raciocínio lógico dedutivo e não as aptidões linguísticas de descodificação de textos.
Porque é que um aluno tem que ser bom ou muito bom a Português para poder ter um mísero 3 a matemática?
Porque é isso mesmo o que se verifica.
Todos os meus alunos a quem dei positiva, este ano, se tivessem percebido o que se pedia no exame, tiravam de 3 para cima.
E os dos meus colegas também.
Mas bastou esperá-los à saída da sala de exames para facilmente se perceber que a maioria não entendeu muito do que leu e, por isso, deu resposta ao que lhe pareceu e não àquilo que, de facto e no fundo, se perguntava.

Querem a prova do que afirmo?
Informem-se junto das Escolas das vossas Terras e depois digam-me:
Quantos foram os alunos que tiveram negativa a Língua Portuguesa e positiva a Matemática?
1%? Nem tanto!
E todos sabemos que grande percentagem dos alunos tem muito mais aptidão para os números do que para as letras, como é natural em qualquer parte do mundo.
Menos no Portugal Sócriano de 2006.
Aqui, para se ser bom a matemática, pelos vistos tem que se ser simultaneamente muito bom a português.
Estou a dizer alguma mentira?
Investiguem…
E tirem as vossas conclusões.

Publicado por JoaoTilly em julho 17, 2006 09:59 PM