maio 21, 2006

A Primeira República

O poder foi assumido por um Governo Provisório, presidido por Teófilo Braga; esse Governo assegurou a governação enquanto a nova Constituição não foi elaborada e, entre outras reformas, decretou a lei da família, a lei do divórcio, a lei de separação da Igreja e do Estado, e criou as Universidades de Lisboa e do Porto.
A Assembleia Constituinte reuniu pela primeira vez em 19 de Julho de 1911 e em 21 de Agosto tinha concluída a Constituição.
A primeira Constituição republicana é, com as mudanças impostas pelo novo regime e novos tempos, um regresso ao espírito da Constituição de 1822, regresso que resultou de um anticartismo tradicional do movimento republicano.
O órgão básico de toda a política era o Congresso da República, constituído pelo Senado e pela Câmara dos Deputados.
Senadores e deputados eram eleitos por sufrágio universal e directo e a duração dos mandatos era de seis anos para os primeiros, três para os segundos.
Ao Congresso competia eleger e destituir o Presidente da República.
Quanto à administração local, consagrou-se o princípio da descentralização, outra noção grata ao ideário republicano.
«O poder executivo não terá ingerência na vida dos corpos administrativos.» Como a cobrança de receitas continuou centralizada, a independência das autarquias foi sempre precária.
Embora nenhum artigo o estabelecesse, introduziu-se a praxe constitucional de fazer depender a permanência dos Governos no poder da confiança parlamentar, porque esta confiança estava na base do mandato presidencial. Esta situação facilitou a acção de outras forças geradoras de instabilidade política.

Em dezasseis anos, o regime republicano conheceu oito presidentes e cin- quenta mudanças de Governo.

Os primeiros anos do novo regime são, do ponto de vista político, marcados pela luta entre as correntes em que se dividiu o Partido Republicano logo que este conquistou o poder.
Até à implantação do novo regime, o movimento republicano dispôs de um objectivo suficientemente forte para lhe assegurar a unidade: derrubar a monarquia.
Mas logo que a monarquia caiu fizeram-se sentir as consequências da falta de um programa concreto.
Uma corrente exigia reformas radicais impostas por métodos igualmente radicais; apoiava-se num activo sector de opinião popular, era agressivamente anticlerical e pretendia agir depressa.
Uma outra mostrava-se mais branda, defendia uma linha de transigência e conciliação com muitos interesses criados e tinha o apoio dos níveis mais altos da burguesia republicana.
A primeira destas tendências levou à formação do Partido Democrático (Afonso Costa):
a segunda, dos Partidos Evolucionista (António José de Almeida) e Unionista (Brito Camacho).

Para além da oposição das ideias e das classes, funcionou o conflito entre pessoas.


O chefe do Partido Democrático, Afonso Costa, tinha um talento vigoroso e uma capacidade de agir que o colocavam muito acima da generalidade do pessoal político do novo regime. Essa superioridade atiçou contra ele os ódios políticos.
Em 1913, o chefe democrático presidiu ao Governo e conseguiu dominar temporariamente a anarquia administrativa e equilibrar o orçamento, quebra-cabeças herdado da monarquia.
A partir de então, a oposição dos outros partidos acentuou-se, ao mesmo tempo que a adesão popular se tomava mais forte.
Uma segunda fase do percurso político da Primeira República relaciona-se com a Primeira Grande Guerra, de 1914-1918.
As forças políticas portuguesas dividiram-se.
O Partido Democrático defendia a entrada de Portugal no conflito.
O argumento mais usado foi o de que era esse o único caminho para defender as colónias.

Sabia-se que, em 1913, chegara a estar pronto para assinatura um pacto secreto entre a Inglaterra e a Alemanha, pelo qual as duas potências dividiam o ultramar português, metade para cada uma.

A guerra suspendera a execução, mas o vencedor, fosse um ou outro, viria a ficar com ambos os quinhões. Além dessa razão, havia o desejo de fazer alinhar o País no contexto europeu, o que se entendia ser exigido pelo progresso nacional.
Mas na base dos debates estavam irredutíveis elementos ideológicos: as «esquerdas» eram pelos Aliados, que diziam representar a causa da liberdade, as «direitas» eram pelos Alemães, que se identificavam como a autoridade e a ordem.

A implantação popular do Partido Democrático era tão forte que o projecto de entrar numa guerra no estrangeiro não provocou grandes resistências.
As dificuldades a vencer foram mais as externas que as internas: a Inglaterra não admitia que Portugal invocasse a aliança inglesa como motivo para a entrada na guerra.
Se quiséssemos fazer a guerra, seria por causa nossa, não por causa da aliança.

O assunto veio a ser resolvido em 1916 com o apresamento dos barcos alemães.
Ao começar a guerra, cerca de setenta navios mercantes alemães, surpreendidos no mar, vieram refugiar-se no Tejo, porto neutro, onde contavam escapar ao apresamento pela esquadra inglesa.
Mas a Inglaterra precisou dos navios e pediu-nos que nos apoderássemos deles para depois os colocar ao seu serviço.
Assim fizemos e, como se esperava, a Alemanha declarou-nos a guerra.

Duas divisões com cinquenta e cinco mil homens foram enviados para a França no início de 1917 (ano do Aparição da Sra de Fátima) e ali se mantiveram até ao Armistício, em Novembro de 1918.
Outras forças foram enviadas para Angola e Moçambique, que tinham fronteiras com colónias alemãs e foram invadidas; a guerra assumiu aí os aspectos mais graves para nós, com cerca de cinco milhares de mortos.

Isso nos deu o direito de, na conferência da paz, alinhar entre os vencedores e obter o reconhecimento das nossas posições africanas, além de comparticipação nas pesadas indemnizações de guerra (as reparações) que os Alemães tiveram de pagar aos Aliados.

Com a entrada na guerra, os partidos inimigos deram-se as mãos para um Governo interpartidário (União Sagrada), mas a acalmia não durou muito.
Em fins de 1917, as forças que se opunham à participação portuguesa na guerra (de um modo geral, os sectores da direita) desencadearam a revolução de Sidónio Pais, que estabeleceu a ditadura.
Um decreto ditatorial modificou a forma de eleição do chefe do Estado e Sidónio foi eleito presidente da República por sufrágio universal e directo.
Essa primeira experiência presidencialista durou porém pouco; no fim de 1918, Sidónio Pais foi assassinado em Lisboa.

Na agitação que se seguiu, sidonistas e monárquicos tentaram conquistar o poder.
A monarquia chegou a ser proclamada no Porto, e é esse efémero episódio que se chama monarquia do Norte.
A tentativa monárquica provocou um reavivamento do sentimento republicano que levou ao triunfo das forças democráticas (República velha, por oposição à República nova, designação que os sidonistas davam ao seu regime).

O período de 1920 a 1926 foi a fase mais agitada da história da Primeira República.

Em 1920 passaram pelo Governo oito ministérios.
Do ano seguinte foi a noite sangrenta de 19 de Outubro, em que foram assassinados alguns políticos de grande destaque, entre eles, António Granjo, o presidente do Ministério que nesse dia tinha sido derrubado por uma revolução democrática.

Os partidos imputaram-se mutuamente a responsabilidade ou a cumplicidade no crime, que teve imensa e indignada repercussão nacional.
Com o fim da guerra, as questões económicas, financeiras e sociais tinham-se agravado muito e a permanente crise política impedia a sua solução.
A moeda desvalorizou-se: a libra valia 7$50 em 1919 e 127$40 em 1924.
A inflação galopante subverteu as pequenas economias, que em grande parte estavam capitalizadas em títulos de crédito do Tesouro, os papéis do Estado. Estes passaram a não valer nada e o crédito do Estado e as possibilidades de recorrer ao empréstimo interno ficaram diminuídas.
Em 1924, o Governo recorreu à venda da prata, que até então representara parte importante da moeda em circulação.
As receitas públicas não foram actualizadas na medida da desvalorização, o que criou enormes dificuldades de tesouraria e o empobrecimento das remunerações.

Os operários, enquadrados por organizações sindicais predominantemente anarquistas usaram então insistentemente a greve como instrumento de luta pela melhoria do salário: muitas vezes as greves eram acompanhadas de violentas confrontações com as forças do Governo, servindo-se da bomba como arma frequente.

Tudo isso alarmou muito a consciência pequeno-burguesa, o alicerce do regime.
O Partido Democrático entrou em crise e cindiu-se em grupos rivais.

Afonso Costa, desgostoso, retirou-se da actividade política directa e passou a viver no estrangeiro.

A actividade dos partidos aparecia a um grande sector da opinião não como um processo de realização de uma política progressista, mas como um obstáculo a essa política.

«Só a ditadura nos pode salvar», era uma opinião corrente em 1924, como se lê num artigo da Seara Nova desse ano.
«Não se diz tal ditadura, a ditadura de tais homens, a ditadura com tal finalidade e tais processos, a ditadura apoiada em tal ou tal força nacional superior às classes, às casernas e aos partidos. Diz-se, muito simplesmente, a ditadura.»


O Governo do Partido Democrático de António Maria da Silva estava já no poder havia vinte e dois meses.
Era uma longevidade inadmissível para os outros partidos, ansiosos de se revezarem no Governo.
As dissidências mais avançadas do Partido Democrático decidiram recorrer a um golpe militar.
Em 28 de Maio de 1926, o general Gomes da Costa, um dos poucos generais que combateram na Flandres e que por isso tinha prestígio no exército, proclamou a revolta em Braga e depressa conseguiu a adesão de todas as tropas do Norte.
O plano previa que a revolução estalaria ao mesmo tempo em Lisboa, coman- dada por um oficial de marinha muito metido na vida política: o comandante
Cabeçadas.
O movimento em Lisboa gorou-se por falta de adesões, mas, em face da situação do Norte, o presidente da República chamou o comandante Cabeçadas, nomeou-o presidente do Ministério e no dia seguinte renunciou ao mandato presidencial.

Mantinha-se desse modo a ficção da legalidade constitucional, porque era o Ministério no seu conjunto quem substituía o presidente quando este cessasse funções (por isso Cabeçadas foi nomeado ministro de todas as pastas, isto é, foi investido na qualidade de conjunto do Ministério).

Não era, porém, só a oposição partidária quem estava interessado na revo- lução.
As forças da direita também o estavam e agiram imediatamente sobre os chefes militares para que estes pusessem ponto final não só à hegemonia do Partido Democrático, mas ao próprio governo dos partidos, quaisquer que eles fossem.
As tropas continuaram a avançar para Lisboa, já depois da renúncia do presidente, isto é, depois de atingido o objectivo inicial.
O pretexto era uma parada nas ruas da capital; mas depois da parada ficaram acampadas em redor da cidade e, em 17 de Junho, voltaram a entrar nela para impor a demissão do presidente do Ministério, em quem viam o último representante do antigo regime.
Assim começou a ditadura militar (1926-1933).


A obra da Primeira República foi julgada de formas diferentes.
Para uns, foi um período totalmente negativo, que substituiu a autoridade pela demagogia, desorganizou o aparelho do Estado, tornando-se incapaz de resolver problemas reais, empobreceu o País, retardou o progresso económico, agravou a dependência semicolonial em relação à Inglaterra e se resumiu a uma irresponsável palradeira parlamentar entrecortada por páginas sangrentas.
Para outros, foi uma época de agitação fecunda e criadora que fez a primeira experiência de governação democrática, interessou o povo no processo político, deu passos definitivos e inovadores na legislação da família e do ensino, defendeu os domínios ultramarinos da avidez das grandes potências pelo corajoso preço da entrada na Primeira Grande Guerra e permitiu a formação da mentalidade política civilizada e progressiva revelada pelos intelectuais da Seara Nova.

O antagonismo radical destas interpretações reflecte conflitos ideológicos insuperados, impeditivos da formação de uma imagem integradora e explicativa, independente de preconceitos valorativos.
É, aliás, tendência geral, em relação aos períodos recentes da história, usar-se mais o sentimento que a aritmética e preferir-se a reacção emotiva, que vai da hipérbole pueril ao insulto primário, aos juízos baseados nos factos, isentos, serenos e informados.

(Continua - O Estado Novo)

Publicado por JoaoTilly em maio 21, 2006 11:34 AM
Comentários

Pode continuar, não se fique por 1933 sff.

São posts com uma visão interessante, parabéns.

Afixado por: Alfredo Vieira em maio 21, 2006 09:22 PM

Gosto da sua visão. Vejo que é critico e defende a República e o socialismo, apesar de, infelizmente, o socialismo estar dividido entre os VERDADEIROS socialistas, e os socialistas á moda Guterres/Socrates, de centro-direita não assumidos que constituem a maioria interna do partido, aqueles que o povo não quer mas tem de aturar. Mas sabe uma coisa, eu acho que ainda bem que não perguntamos aos portugueses se eles querem este ou outro regime, pois se isso acontecesse, teriamos actualmente uma ditadura, e o ditador seria Cavaco Silva.

Afixado por: Jorge em junho 14, 2007 10:34 PM
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