“Existe uma canalha que frequenta as rádios, televisões e jornais que não respeita nada nem ninguém”. A afirmação foi disparada contra os jornalistas que pretendem “liquidar aqueles que incomodam”, por Emídio Rangel, ex-director da RTP e da SIC, no lançamento do livro de Carrilho, ontem, no teatro D. Maria II.
Há cerca de 2 anos inseri vários textos sobre o que denominei «o miserável jornalismo televisivo».
Criei, até, uma categoria neste blog dedicada a isso.
Porque é um fenómeno que tem atacado cirurgicamente a sociedade portuguesa sempre que tal se mostra necessário e com uma eficácia terrível.
O sistema, ou processo, é sempre o mesmo:
Subitamente, sem se perceber porquê, um jornal começa a ridicularizar um personagem público e, passadas apenas algumas horas, ergue-se um coro nacional em todas as rádios e televisões no mesmo sentido, que se fixa dia e noite, numa maré alastrante que pode durar semanas inteiras.
Esta acção concertada visa arruinar a carreira e as legítimas pretensões de quem se propõe atingir alguma posição de relevo público-institucional.
O primeiro mártir deste tipo de campanhas jornalísticas - este «polvo jornalístico», como lhe chama agora Manuel Carrilho - não foi ele.
Foi Santana Lopes.
No auge dessa campanha, a toda a hora se produziam "notícias" negativas sobre SL, cujo objectivo era nitidamente o de o ridicularizar ao máximo aos olhos do povão que nada sabe de coisa nenhuma e, portanto, vai acreditando no que o cartel de jornalistas comprados pelos interesses instalados vomitam, enquanto recebem à baboseira.
Se fazia a sesta, se ia à discoteca, se estava a passear no jardim com a família, tudo foi pretexto para a guerra diária e generalizada que os média lhe moveram, numa tentativa descarada de lhe assassinarem a imagem, à custa de uma mega-acção global sem precedentes neste país.
O jornalismo do regime, à força da repetição diária em todos os telejornais, acabou por cilindrá-lo. O homem não podia fazer fosse o que fosse. Não podia aparecer nem ficar recatado. Não podia estar acordado nem a dormir. Só estaria bem se estivesse morto.
E porque é que isto aconteceu?
Porque Santana Lopes ousou incomodar, como ninguém antes dele, a Alta Finança - a qual obrigou, por exemplo, a começar a pagar impostos.
Esse «obviamente pagarão!» foi o seu epitáfio político.
Nunca mais o grande capital o deixará levantar cabeça.
Tornou-se o alvo a abater para todo o sempre.
E teve aqui o seu início a campanha "jornalistica" generalizada mais sabuja que eu vi, em 45 anos de idade, destinada a liquidar um Homem.
Campanha essa que não terminou com a sua derrota eleitoral. Longe disso!
Continuará para sempre, enquanto os todo-poderosos do dinheiro desconfiarem que ele, se mandasse, os obrigaria a pagar ainda mais impostos.
Ainda hoje ele não pode fazer nada, nem sequer ir às compras, que saltam logo matilhas de maledicentes escrevinhadores do regime a denunciá-lo por estar vivo.
Foi com Santana Lopes que começou a indignidade e nasceu o polvo.
Carrilho é, apenas e nitidamente, a segunda vítima.
Mas não sofreu menos por isso.
O padrão da molusca ignomínia jornaleira repetiu-se, agora em sinal contrário.
Carrilho era demasiado perigoso em Lisboa. Tem ideias que «colidem directamente com quem quer continuar a fazer mal à Cidade».
Tem uma visão para uma Lisboa moderna que choca frontalmente com os grandes interesses instalados. Com os grandes construtores. Com os grandes projectos de betão.
Carrilho queria ordenar e organizar a cidade reavivando o seu centros históricos, recolocando as pessoas e o pulsar da Vida no lugar dos escritórios e dos arranha céus desertificantes.
Carrilho queria uma Lisboa para os lisboetas. Para que os residentes e visitantes pudessem usufruir de uma Qualidade de Vida bastante mais elevada.
Carrilho queria uma Lisboa viva. Com mais espaços verdes, com centros de debate e de discussão social. Com mais locais de troca de Culturas e Conhecimento.
Isto colide frontalmente com a Lisboa do betão. Dos condomínios fechados de luxo de Telheiras ou da Lapa, dos andares de 250 mil contos com porteiros e segurança interna.
Isto colide com os interesses da Alta Finança.
Vai daí, foi o segundo alvo a abater.
Nada disto é novo.
O que é pioneira é a coragem da sua denúncia em livro, porque Santana Lopes já anteriormente tinha acusado a imprensa mercenária exactamente do mesmo nas eleições legislativas.
Onde até uma forte gripe e uma súbita doença incomodativa que o obrigou a uma intervenção cirúrgica a meio da campanha - Santana chegou a discursar com 40 graus de febre - se fez confundir com «cinzentismo» e «falta de convicção»!
Há meses escrevi a Carrilho, solidarizando-me com a sua luta e comparando-o a Santana Lopes. Não nos ideais, mas nas convicções.
Agradeceu, embora não se identificando com a analogia, obviamente.
Agora, os recentes assassinatos "jornalísticos" colocaram-nos no mesmo "saco".
Utilizando os mesmos processos, fizeram deles dois alvos a abater.
A História provou, uma vez mais, que eu não estava muito longe da verdade.