maio 09, 2006

Forum Tsf

Acabo de participar num fórum da tsf, hoje subordinado ao tema: «quais os nossos trunfos para podermos singrar na Europa?»

E eles, curiosamente, escolheram dois excertos da minha intervenção para fechar o programa:
1 - «Perdemos todas as oportunidades, mesmo aquelas que tinhamos antes do 25 de Abril» e
2 - «Nós, hoje, não somos nada: nem carne nem peixe. Por isso é preciso decidir: ou vamos para a carne ou vamos para o peixe!»

e com esta frase gravada da minha intervenção terminou o medley de excertos com que sempre se fecha o programa.

Não tem importância nenhuma, mas fica um homem com o ego mais lavado, quando vê que alguém (que nunca conhecerei) valoriza as minhas intervenções.

Aqui fica um resumo para os mais curiosos e antes que me esqueça totalmente do que disse de improviso, como sempre:
Estou em Seia, no sopé da Serra da Estrela, outrora o 2º destino turístico do país, que hoje nem sequer faz parte dos roteiros turísticos da nação.
Este breve intróito serve para ilustrar a minha breve intervenção.
Para se poder fazer o ponto da situação e percebermos o que nos aconteceu, temos que ter uma perspectiva alargada do que se passou connosco, onde estamos e para onde caminhamos.
E o que aconteceu com o país foi simplesmente que fomos perdendo todas as oportunidades, mesmo aquelas que tinhamos antes do 25 de Abril.
Desde 85, ano em que aderimos à então CEE, até hoje, recebemos mais de 50 mil milhões de contos. Em subsídios concedidos pelos outros povos. Pelos nossos companheiros de projecto europeu.
Pergunta-se: o que se fez e onde está esse dinheiro?
Construiram-se umas auto estradas e umas torres de betão, mas isso não corresponde nem a 1% do dinheiro recebido.
Ninguém sabe onde está o resto, ou melhor: toda a gente sabe onde ele foi esbanjado e onde não foi investido.
E agora é a nossa vez de pagar.
Mas também agora, as grandes empresas abandonam-nos para se irem instalar nos paraísos dos baixos salários: a Roménia e a Polónia.
E esses países estão agora a receber os subsídios da UE que nós também recebemos durante 20 anos e que imbecilmente esbanjámos.
Agora somos nós que contribuimos duplamente contra nós:
Estamos a começar a devolver à UE tudo o que emprestaram - e que nós não utilizámos para nos desenvolvermos - e estamos a contribuir para os países que nos "roubam" todos os dias as grandes empresas (e milhares de postos de trabalho e de famílias em desespero e à mingua) que, hoje, para eles se deslocalizam.
O nosso problema básico é que nós estamos, quais baratas tontas, a arengar entre dois modelos extremos de sociedade, e sem sermos capazes de optar por nenhum deles:
De um lado, o Brasil - onde nada funciona à primeira e tudo acaba por funcionar depois, mercê da macroeconomia paralela - e do outro, a Europa regrada e desenvolvida.
Nós estamos - em Alma - muito mais próximos da idiossincrasia Brasileira, mas isso não é saída para o nosso subdesenvolvimento.
Lá, as coisas acabam por funcionar «não funcionando».
Eles aprenderam a viver quase sem "trabalhar", na acepção suada do termo, mercê de uma complicadíssima teia institucional de jogos de bastidores, corrupções legais e distribuição de luvas que, quando respeitada, faz com que tudo acabe por se resolver.
Só um pouco mais lentamente do que na Europa.
Mas, em compensação, o país é muito rico e o povo paga muito menos impostos.
Por isso se permite generalizadamente a existência das favelas, por exemplo, autênticos mega-guetos de uma sociedade impensável em qualquer país desenvolvido (Portugal incluído).
Ninguém paga água nem luz nem impostos, nas favelas. E é assim mesmo.
Cá as coisas são mais fáceis.
Não funcionam. Apenas.


O que fazer?

Eu sou professor de matemática.
Todos os dias fico aterrorizado ao verificar que as escolas básicas estão a descarregar, para a sociedade, multidões de jovens absolutamente inmpreparados para o que quer que seja, por serem autênticos analfabetos funcionais.
As crianças conseguem ler. Ou seja: transformam códigos escritos em informação fonética, mas não fazem a mínima ideia do que estão a ler.
Assim não é possível melhorar coisa nenhuma no futuro.
Se queremos um modelo desenvolvido temos que começar pela geração que hoje ainda é criança.
Esqueçamos a nossa. Quanto a essa já não há nada a fazer. Perdemos 32 anos de oportunidades e de sonhos.
Talvez haja algo a fazer pela geração seguinte.
Mas o quê?

Formá-los. É a resposta.
Ministrar-lhes Conhecimento. A sério.
E obrigá-los a aprender.
Se os alunos que, hoje em dia, nada fazem, nem ideia das disciplinas que deveriam estudar, e mesmo assim chegam sem esforço ao 10º ano começarem finalmente a chumbar, daqui a 4 anos teremos o nosso principal cancro social em vias de resolução.
Começaremos a formar multidões de gente capaz, que sabe que está viva, e que entende que existe vida para além da morangada e do futebol.
Assim, estaremos a dar à sociedade a possibilidade de, naturalmente, se aperfeiçoar, porque os melhores, no processo natural da vida virão logicamente ao de cima, substituindo a mediocridade reinante instalada em todo o lado, e também no aparelho de estado.
É este o caminho e não há outro.
A escola tem que começar a exigir que os alunos aprendam.
Tem que começar a formar em vez de passar alunos.
E aí, sim. Daqui a 20, 30 anos teremos finalmente gente competente a governar este país.
E um povo culto para poder reivindicar o que mais faz falta - decidindo, por exemplo, entre a construção de mais um Hospital ou de mais um estádio de futebol - e assim poder participar e compreender o fenómeno do desenvolvimento e da contínua reforma social.
Poderemos, só então, começar a pensar em convergir para os rácios dos países europeus desenvolvidos.
Antes, não.

Publicado por JoaoTilly em maio 9, 2006 01:10 PM
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