«Desculpem lá, mas...»
«Perdeu toda a razão pela maneira como falou...»
São apenas dois paradigmas da estupidez tuga hoje claramente postas a nu, por Zé Pedro Gomes, no Cinema de Seia.
Um monólogo notável, com altos e baixos, em que o improviso e a "bucha" momentânea fizeram o contraponto a um texto muito incisivo que, mesmo assim, foi hoje algo mitigado pelo actor.
Logo ao princípio Zé Pedro percebeu que as caricaturas feitas a José Sócrates não colhiam o esperado efeito na plateia. É preciso perceber-se que Seia foi a única cidade em que, até agora, se viu Mário Soares ser levado em ombros...
Zé Pedro inflectiu porque conhece e domina o palco. E a plateia. Não deixou de dizer as coisas. Apenas o fez de outra forma.
O actor rapidamente se apercebe da forma como o público, em cada localidade, vai reagindo aos gags do guião. E adapta o próximo gag à sensibiliodade do público, de acordo com a reacção anterior.
Sabe muito e ainda bem.
Aponta uma longa lista de tuguices indesculpáveis no sec 21, culminando o texto com a proposta de, dentro de uma semana, o país arrancar do zero absoluto.
«Coçar onde é preciso» constituiu uma lufada de ar fresco no cinzentismo resignado senense.
Um hino ao politicamente incorrecto e ao tecnicamente irrepreensível.
Espero que esta peça e a visão que ela encerra tenham surtido algum efeito nas mentalidades empedernidas de muitos senense permanentemente distraídos.