janeiro 09, 2006

Os alvejamentos de polícias e as consequentes «caças ao homem»

Sempre me chocou a imediata mobilização de que as polícias dão provas quando se trata de caçar os homens que alvejam os seus colegas de profissão, por contraste com a displicência ou, pelo menos, morosidade com que os demais crimes de sangue, perpetrados contra cidadãos comuns, são tratados pelas mesmas polícias.
Sempre me pareceu que tal fenómeno tinha a ver com resquícios procedimentares do tempo do estado policial que governou Portugal nos últimos anos do salazarismo e do marcelismo. Mas como já se passaram 31 anos desde Abril e esta prática é cada vez mais ostentada, sou forçado a reconhecer que não se trata tanto do produto de uma aculturação estratégico-política como de uma reacção de vingança corporativa primária.

Não me parece normal que se continue a tratar um crime contra um polícia como se fosse a coisa mais grave do mundo, enquanto praticamente quase nada se faz, para além dos procedimentos rotineiros, para se tentar descobrir um assassino de um cidadão civil.

Aqui em Seia, por exemplo, continuam por descobrir praticamente todos os assassinos que não confessaram os seus crimes.
O do professor do tabaco, na estrada de Alvoco. O quádruplo homicídio da Teixeira. O do empresário dos sofás de Paranhos. O casal que apareceu morto num poço ao lado de uma discoteca em Sta Comba, nos anos 80.
E outros suicídios que levantaram muitas dúvidas a todos quantos conheciam os "suicidas", como o caso do empresário que apareceu enforcado dentro de uma carrinha isotérmica (não conseguiria fechar a porta depois de morto...), e mais recentemente o de um empresário do ramo automóvel que, 15 minutos antes de se ter suicidado, contava anedotas alegremente num café vizinho do stand onde terá posto cobro à vida.
É sabido que um dos modus operandii das máfias de leste é simular suicídios por enforcamento...
Pode não ter sido o caso, mas a verdade é que ninguém investigou a fundo coisa nenhuma, enquanto as famílias tudo fazem para que não se realizem as autópsias obrigatórias, nestes casos.
Claro que estamos a falar de uma zona do interior esquecido e ostracizado do país mais inculto da Europa. Mas para isso é que a Justiça existe: para repor a legalidade em todo o território nacional. Aqui ou em Lisboa.
O que se passa é que a Justiça, por estas bandas, também parece não se incomodar muito com isso. Desde que não haja quem faça muita força para que os processos cheguem ao fim... geralmente eles são arquivados e os criminosos não descobertos.
E assim, se estes ou outros suicídios foram, de facto, homicídios, é coisa que nunca ninguém saberá. Portanto, se alguém perpetrou algum homicídio destes ficou para sempre impune.
Trata-se do crime perfeito. O tal que Hitchcok dizia existir em toda a parte.

O que contrasta chocantemente com a mobilização geral de todo o corpo policial logo que se trata de "vingar" um colega abatido ou baleado.
Acredito que se trate de uma questão cultural, mais do que de procedimentos oun de tramitação legal.

No dia em que a vida de um polícia, para outro polícia, valer o mesmo que a vida de um civil, poderemos começar a pensar em verdadeira e eficaz investigação policial.
Até lá... «é mais bolos...»

Publicado por JoaoTilly em janeiro 9, 2006 12:39 PM
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