junho 01, 2004

Centro de Saúde de Seia - António Nolasco nega ter sido demitido por fax


António José Ferreira Nolasco, em grande entrevista exclusiva ao jornal Porta da Estrela, explica como foi substituído e porquê. Fala do Centro de Saúde e da dança das cadeiras. Das polémicas e queixas que envolveram alguns funcionários. Da falta de médicos. Das filas desde as 4 da manhã para se obter uma consulta. Do aumento de produtividade. Da gestão de unidades de Saúde e das reticências sobre a eficácia de gestores hospitalares que não têm formação clínica. Por último deixa a porta aberta a futuros convites... no futuro.

O médico que vinha ocupando, nos últimos anos, o lugar de director do Centro de Saúde de Seia foi substituído no dia 11 de Maio, tal como aconteceu a outros directores por esse distrito fora. Acontece que a forma de que se revestiram estas substituições não tem sido pacífica, havendo até casos de alguns ex-directores que deram conferências de imprensa para denunciar algumas situações que estarão por detrás destas demissões, nomeadamente a forma impessoal como algumas delas lhes foram comunicadas.
Não foi o caso de Ferreira Nolasco, que acedeu a dar uma longa entrevista ao PE sobre o ponto da situação no Centro de Saúde. Depois de a ler, o leitor ficará sem perceber porque foi o médico substituído. E a razão, afinal, não pode ser mais simples: a dança das cadeiras.

(clique abaixo para ler a entrevista na íntegra)

PE: Dr. Nolasco: muitos directores de Centros de Saúde foram ultimamente substituídos (demitidos) de forma estranha. Alguns deles queixaram-se à comunicação social que foram os funcionários administrativos que lhes deram a ler o fax da sua própria demissão. Foi o que se passou consigo?
AN: Não. Nós já estávamos à espera há uma série de meses desta substituição porque desde o dia 9 de Janeiro que entrou em funcionamento a nova regulamentação dos Centros de Saúde que inviabiliza, só por si, as direcções tal como se encontram neste momento – um director e 2 vogais. Ainda não saiu a regulamentação da classificação dos CS (Centros de Saúde). O nosso ficará equiparado ao nível 2 ou classe B. As novas direcções serão nomeadas dependendo disso, porque tem a ver com a nomeação igualmente de coordenadores para as áreas da medicina, enfermagem, administrativos, etc. Portanto, estávamos perfeitamente informados que, até novas ordens do ministério, continuaríamos em funções. Quando chegasse a altura proceder-se-ia à substituição das direcções. No dia 11 de Maio a Dra. Emília – coordenadora da Sub-Região de Saúde da Guarda – ligou-me informando que iria entrar em funções o novo director, que seria o Dr. Costa Neto, mas que queria ter uma reunião com o corpo clínico para expôr isso mesmo. Ao que se diz, esta terá sido uma excepção porque, no nosso caso, foi a coordenadora que quis ter uma reunião connosco para explicar a situação e não houve, portanto, qualquer tipo de demissão por fax ou telefone. Sublinho que a Dra. Emília fez questão em reunir pessoalmente connosco para elogiar o trabalho levado a efeito por esta direcção e pedir a continuação da melhor colaboração dos funcionários para com o novo director.
PE: Seia foi, então, um caso especial?
AN: Ao que ouço, sim. Até porque, modéstia aparte, tenho que dizer que o Centro de Saúde estava, durante a direcção anterior, muito mal cotado na “bolsa” dos CSs da região da Guarda e neste momento o que a coordenadora veio fazer foi precisamente reconhecer o mérito desta equipa de profissionais que conseguiu colocar este CS como uma das referências ao nível da sub-região de saúde. Estamos muito bem posicionados em termos de objectivos e de produtividade. A coordenadora veio pessoalmente sublinhar este aspecto, dizendo que esperava desta equipa de profissionais a mesma colaboração relativamente ao novo director. Ao que sabemos este foi o único CS que teve este tratamento personalizado.
PE: Assim sendo, mal se compreende esta substituição. Em equipa que ganha não se costuma mexer...
AN: A coordenadora de alguma forma deixou transparecer a sua incomodidade relativamente à decisão desta substituição em particular.
PE: Porque não teve fundamentos técnicos?
AN: Isso não teve, de certeza absoluta. Nós sabíamos, em reuniões de directores, que estariam a ser feitos esforços e démarches no sentido de se produzirem substituições, porque estas coisas mudam conforme os governos e as cores...
PE: Esta substituição terá tido alguma coisa a ver com queixas de alguns funcionários ou utentes do CS? O PE teve conhecimento de, pelo menos, uma queixa formal de um funcionário a par de outras de alguns utentes...
AN: Não. Essa queixa segue os seus trâmites legais, na Inspecção Geral de Saúde, mas nenhuma dessas situações tem algo a ver com isto. Nem a própria coordenadora tinha conhecimento dessas situações porque ainda não houve despacho ou decisão sobre as mesmas. Tem-no agora porque eu lhe comuniquei.
PE: Mas não havia um certo mal estar entre alguns profissionais do CS?
AN: Quando se ocupa um cargo destes, as pessoas têm que assumir determinados métodos. Quando tomei posse, havia muitos problemas em quase todos os sectores profissionais, quer médicos, quer administrativos, e alguns deles bastante graves. A proposta que me fizeram foi a de tentar pacificar esses conflitos, o que foi conseguido. Neste momento, a nível do sector médico – que é um sector complicadíssimo porque há muitas tendências, muitas sensibilidades, muitos interesses pessoais em jogo - o ambiente está perfeitamente pacificado. Há e sempre houve um bom ambiente no sector da enfermagem, e há um bom ambiente a nível do sector administrativo.
Confirmo que há dois ou três casos pontuais de funcionários administrativos que criam, digamos assim, problemas com o seu superior hierárquico. Isto foi sempre uma questão entre o superior hierárquico e dois ou três funcionários.
PE: E esse conflito permanente não terá afectado o funcionamento e a imagem do CS?
AN: De maneira nenhuma. Trata-se de funcionários administrativos cujas funções não se reflectem directamente na qualidade do serviço de saúde prestado ao utente.
PE: Mas o facto de os utentes muitas vezes irem para o CS às 4 da manhã para conseguirem uma consulta não terá a ver com a falta de organização provocada por esse mal-estar entre os funcionários?
AN: Não. O facto de as pessoas irem às 4 e 5 da manhã para o Posto Médico para tentar ter uma consulta prende-se com a acessibilidade às consultas, com a parte médica e com as marcações. Não tem nada a ver com a parte administrativa. Os administrativos limitam-se a cumprir o seu papel e até, muitas vezes, solucionam muitas situações. A culpa aí, se ela existe – e já se resolveram muitos problemas nessa área com algumas medidas que esta direcção tomou – não tem nada a ver com problemas entre administrativos e a sua superior hierárquica.
PE: Nem isso influiu na mudança da direcção...
AN: Não. De maneira nenhuma. Reafirmo que esta substituição estava prevista deste o dia 9 de Janeiro e não se fez antes apenas porque não havia definição sobre a classificação do CS nem definições precisas quanto às funções do novo director. E neste momento ainda não há. Sabe-se que tem que ser um médico e que não pode exercer determinadas funções clínicas. Já se permite que faça clínica, mas não pode ter contratos particulares com hospitais, avenças com consultórios, etc. Enquanto não se definiram estes pontos para clarificar qual era a situação a propor a um director, houve protelação no tempo. Logicamente que também apareceram resultados desde Outubro a esta parte que foram francamente animadores, com a implementação de novos métodos e aumento do índice de produtividade que, aliado à falta de definição das novas regras, originaram o arrastamento da situação. Mas a verdade é que desde o dia 9 de Janeiro que nós estamos demitidos.
PE: Sai, portanto, sem nenhuma espécie de azedume com a sub-região de saúde.
AN: Exactamente. Posso até dizer, a título de exemplo, que a coordenadora me convidou pessoalmente a apresentar um trabalho sobre o Centro de Saúde de Seia antes e agora, dadas as melhorias de produtividade e de imagem que hoje em dia sustenta, nas Jornadas de Saúde a terem lugar em Junho na Guarda, o que me apraz registar, e farei com todo o gosto. É a prova inequívoca do reconhecimento da coordenadora pelo nosso trabalho em Seia. Na mesma ocasião fui informado que o projecto de obras dos baixos do CS está bem encaminhado. Portanto continuo a ter as melhores relações com toda a gente.
PE: E a partir de agora quais vão ser as suas funções no CS?
AN: As de médico, como até aqui. Sou chefe de serviços de clínica geral. Continuo a exercer em Loriga, Alvôco, agora também vou à Vide, e no Centro de Saúde onde ainda tenho um dia de consultas. Um dos meus objectivos é conseguir que cada utente tenha um médico. No CS tínhamos programado atingir esse objectivo em Junho.
Enquanto fui director exerci o melhor que pude, não agradando a todos, como é evidente, mas sinto-me orgulhoso porque se fizeram coisas bonitas. Agora vou ser, simplesmente, médico.
PE: Mas está disponível para aceitar um convite no futuro?
AN: Não sei. Para já quero descansar. Este cargo que agora deixo, apesar de ter estado rodeado de colaboradores que tudo fizeram para ajudar a resolver situações, foi muito desgastante. Prejudiquei a minha vida familiar e pessoal porque não deixei as minhas consultas. Continuei a trabalhar como médico para substituir colegas em ausências prolongadas, para não sobrecarregar os outros colegas e ajudar a minorar o problema da falta de clínicos. Não tinha que o fazer. Tinha redução de horário para poder gerir o CS, mas nunca o usei. Alguma coisa tinha que ficar para trás: foi a vida pessoal.
PE: Acha que um director de um Centro de Saúde deve obrigatoriamente ser médico?
AN: No Centro de Saúde de Seia, que é médio/pequeno, entendo que sim. Não justifica um gestor porque não há centros de receitas. Só de custos.
PE: E em relação ao Hospital?
AN: O Hospital de Seia já mexe com muito dinheiro. Nas duas reuniões que tive com o concelho de administração do HS apercebi-me que presidente do Conselho de Administração se rodeou de profissionais de cada área. Ele não interfere na sensibilidade clínica e tem na gestão um profissional do ofício.
PE: Como é que comenta os artigos sobre Saúde que o Dr José Luis Vaz, o administrador do Hospital, que é advogado, escreve no nosso jornal?
AN: Estamos em democracia, o Dr Luis Vaz pode escrever o que quiser. A opinião que tenho é que o Hospital ganhou visibilidade e notoriedade durante a gestão anterior. As pessoas na direcção anterior projectaram o Hospital para a população que, agora, sente necessidade de um hospital novo. É a discussão do momento. O Dr Luis Vaz, quero crer, assumiu as funções de Administrador e sente que tem possibilidades de escrever sobre o Hospital e sobre Saúde. O facto de ser advogado pode até dar-lhe alguma formação sobre a componente legal. Dos artigos que tenho lido ele foca umas vezes a problemática do Hospital e, outras, pensamentos sobre o sistema de Saúde em Portugal. Não tenho lido que tenha dissertado sobre casos clínicos. Sobre isso ele manifestamente não poderia falar, sequer. Alguns artigos não são tão descabidos assim, e de qualquer forma ele pode falar do que quiser. Vejo é que tem a sensibilidade de não abordar questões clínicas.
PE: Vê, no seu futuro próximo, disponibilidade para aceitar um cargo destes - administrador hospitalar – se para tal fosse convidado?
AN: É muito complicado. Se os CS já são difíceis de gerir, praticamente sem centros de receitas, um hospital é muito mais difícil. Tem que ser alguém que tenha plena noção de gestão e de Saúde também. Porque a medicina não é uma ciência exacta, como a matemática, e há muitas questões que só alguém ligado à Saúde poderá discernir e, às vezes, resolver. E um gestor profissional não tem essa sensibilidade.
PE: Então não estaria, de momento, disponível para um desafio desses?
AN: Neste momento não. É uma questão para depois se ver, mas neste momento, não. Agora pretendo ser médico. Isso me basta.

Despedimo-nos de António Nolasco com a nítida sensação que estivemos a falar com um homem inteligente, muito lúcido, extraordinariamente acessível, e com a plena consciência do dever cumprido.

Publicado por JoaoTilly em junho 1, 2004 05:53 AM
Comentários

O importante, é que as coisas vão começar a funcionar pior. E a culpa é, obviamente, dos profissionais do SNS. E a privatização vem aí para resolver a situação.
E pronto.

Afixado por: Alfredo Vieira em junho 1, 2004 08:48 AM

O mais importante ainda, é mesmo a situação vivida pelos utentes para marcar consultas. Digna de terceiro mundo ou pior. Eu culpo directores, administrativos, médicos, funcionários, todos eles (e não me importo, mesmo sabendo que 1 dia irei querer que estejam lá por mim), e culpo-os a todos porque já assisti infelizemente para quem precisava, às atitudes mais genocidas que estas pessoas cometem no seu dia a dia. Desde pequeno (ainda me lembro da minha mãe umas poucas de vezes sair ás 2 da manha de casa e ir prá porta do CS) que vejo a mesma metodologia de trabalho.. a marcação de consultas é igualzinha.. é apontar num livro de linhas como aqueles das mercearias. Depois das consultas marcadas é ir outra vez cedo pra tar presente na "chamada matinal" senão fica pra ultimo.. coisa que só faz lembrar os judeus a ir prá gaseação. Nestes anos todos.. ainda é tudo tão igual

Afixado por: Marcio Martins em junho 2, 2004 02:05 AM